Primeiros Capítulos de MINHA MENINA, Adriana Vargas







Sinopse:


Aragorne Tirel, herdeiro principal da Coroa. Sádico sedutor, dono do maior clã de Siv. Um dominador que não esquece sua menina, e luta contra o tempo e impossibilidades para trazê-la de volta. 
Charlote, uma submissa que dominou o coração do sádico mais poderoso da corte. Atravessa a morte e o futuro, servindo como prova para a conquista do título de Rei entre Arkadius e Tirel.
Mundos Transponíveis. Épocas que se encontram para o destino traçar suas linhas.
Duelo. Disputa. Espada e coração. Só existe algo maior que o domínio, o amor.


Minha Menina
Adriana Vargas
Livro 2
De Meu Senhor




Mundos
Transponíveis


Capítulo 1

O vento gélido anunciava a impressão da eternidade do frio que vinha de Old, e parecia ser feito especialmente para o Castelo de Siv. A primavera logo viria para forrar as calçadas de flores flamejantes do flamboyant, que floresce profusamente quando recebe o Sol pleno, competindo com qualquer outra planta que ficasse sob sua copa. 
A atmosfera no Castelo não era mais a mesma desde a chegada dos dias que se seguiram após a partida de Charlote para a Terra dos Mortos, e a chegada de novas escravas para o clã de Aragorne Tirel. Por mais que se esforçasse, Seren não conseguia distrair seu Senhor, que mantinha o pensamento perdido, ora em algum canto do Castelo, ora no vagar dos olhos pela janela, diante do silêncio que agora o definia. 
A menina subia delicadamente pelas pernas, a meia de seda com bordas rendadas. Acabara de ser possuída pelo Dono, porém ele parecia não estar presente, o que encheu seu coração de medo e insegurança. Amarrou o laço na cintura, e ajeitou o pequeno arranjo de flores artificiais que prendiam o feixe. Ensaiou um meio sorriso e caminhou em direção ao Senhor, que ainda não havia se trocado. Não sabia se devia tocá-lo, mas algo dizia secretamente em seu subconsciente, que o melhor a se fazer era permanecer otimista e leal. Aproximou-se dele e se ajoelhou, olhando para os pés de Tirel, que desejava imensamente tocá-los. 
− Dono de mim, aqui estou à sua disposição. – silenciou na esperança de ouvi-lo pedir que fizesse algo para agradá-lo. 
− Sim, minha pequena. Adoro lhe ver sempre a meu dispor. – cingiu o assunto enquanto ainda arrostava pela janela em busca de respostas, as quais daria sua própria vida para trazê-las até ele. 
− Senhor, se me permitir, poderei ler algo que goste... Pensei em alguns versos... O Senhor aprecia tanto... – atreveu-se.
Tirel voltou à realidade, pestanejou e olhou para Seren.
− Sim, pode ir buscar a obra na biblioteca. 
A menina quase cabriolou de alegria. Levantou-se, serelepe, cumprimentou o Dominador com um gesto, e saiu pela porta esculpida por uma figura medieval.
O Dono vestia a roupa lentamente enquanto esforçava-se para se manter presente. Deveria ter se acostumado com a ausência de Charlote, mas a cada dia sentia ainda mais sua falta. Seu clã estava colmado de escravas sedentas por sua atenção. Tirel tem feito seu melhor para sanar as necessidades de cada uma, mas por dentro algo parecia truncado e hiato. Todas as vozes no silêncio de seus pensamentos não escusavam aquela perda. 
Colocou o cinturão e caminhou rumo ao aposento que se localizava ao lado da masmorra. Lá se encontravam as vinte meninas que estavam sob seus cuidados desde que sua pupila seguiu para a Terra dos Mortos. Estavam bordando lençóis novos que haviam chegado da Província. Cantavam uma canção que aprenderam durante as aulas, e até isso lembrava Charlote. Ele olhou para a face de cada uma sem que o percebessem. Estavam radiantes, esta fora a impressão, o que deixou seu coração mais desoprimido. 
Voltou para a masmorra quando percebeu Seren chegando com o livro nas mãos. Ensaiou um sorriso e entraram para o aposento. 
− O Senhor gostaria que eu continuasse a ler de onde paramos ou prefere algum capítulo inédito?
− Quero que escolha algo que agradará seu Dono.
− Sim Senhor. 
A menina novamente se ajoelhou e sentou sobre suas pernas. Manuseava o calhamaço como se fosse feito da mais delicada joia, até seus olhos brilharem diante de uma página. Olhou para Tirel e sorriu ao recitar. 

“Este alguém aí...
Com um anjo chorando no peito
Posso ouvi-lo no frio de tua alma
Não envelheça sem antes me sentir
Pálido... Sagaz... 
Então saberá sobre os ponteiros em minha garganta
E, se eu dissesse que o tempo está se ultimando
Com a aproximação de teus pés a sangrarem
Na benção de um sorriso?
Sente-me?
Tocaria meu corpo nu sob a luz de uma tocha
Nascendo em teus olhos?
Saberia gritar se tua voz se calasse
Se teus lábios pousassem agressivos
Arranhando o céu de minha boca?
Romperia o muro abstrato
Arte do além
Viscerantes ao escutar
A Divina Comédia recitada no rouco lento de minha voz?
Venha-te depressa...
O tempo na ampulheta se perfaz aos poucos
Não há ninguém aqui além de nós
Toca-me...
Longe das calçadas sujas de um passado que não volta
Jogue a pedra de seu coração
Esvazia-se das mentiras
Não volte antes de me contar teus segredos
Não se exima do mal
Que quebra teu telhado
Sem antes apalpar os meus seios...
Sem antes eu entregar-me inteiramente
Longe o suficiente que não o fará voltar
Distante do que teus olhos me rasgam
E cortam meus pulsos
Há veneno em meu último gole d’água
Bebo-te a miúdo
Lentamente serei tua...
Sem ninguém para me ajudar a voltar
Sem quebrar as garrafas de teu falso pudor
Não há garantias...
Não há juras, nem promessas em um colar de pérolas...
Quando o sublime dos desejos
Instaura-se no teu “eu”...
Com o insaciável meu “eu”...
A unidade do perpétuo
Um crime mútuo
Sem redenção...”


Ao terminar, ela o olhou, sentia-se fascinada por cada palavra lida. Os dedos dele apertavam com força o ferro da cadeira, como se quisessem quebrá-lo. Os olhos firmes não escondiam a paixão latente pela irmã de coleira que se foi. Seren mordeu o lábio inferior, sabendo que nada o distrairia, e por mais que ele tentasse, não havia como esconder. Ela queria acreditar que uma pessoa falecida se dissiparia no abismo dos dias passados, mas isso não acontece com os sivianos, que não morrem simplesmente quando enterrados e lembrados como alguém que passou um tempo ao lado dos seus. Um siviano permanece vivo em outra dimensão, o corpo se refaz após a entrada no mundo de Siv, semelhante a um ser infindo. Eles voltam quando são liberados para um novo múnus, e neste momento esquecem a vida predecessora. Por mais que Seren não entendesse como tudo funcionava, ela sabia que Charlote estava viva em outra dimensão, e que poderia ter voltado em seu lugar, mesmo se fosse por um tempo resoluto pela castra superior da Terra dos Mortos, mas a irmã optou pela honra, cedendo seu lugar a quem mais compreendeu o Senhor, mesmo quando ninguém poderia fazê-lo. Seren se sentia grata. Talvez nunca conseguisse retribuir como desejava, mas suas condolências eram sinceras.
− Vá, menina... Se junte às outras, tenho alguns afazeres. – disse tentando disfarçar o esmorecimento. 
A menina se levantou tristonha, e se foi. Ele a olhava caminhar, com seus joelhos roçando um ao outro, e as pontas dos pés arcavam levemente para dentro, dando a ela um ar quase infantil. 
Tirel arfou um pouco de ar, arrumou os cabelos e calçou suas botas. Pegou a bengala e caminhou pelos corredores de Siv, alheio a tudo, mas com comiseração inquietante por dentro.


Quando veio a noite, a penumbra que cobria sutilmente os últimos raios de Sol tornou-se mais sólida, a ponto de forrar o céu rapidamente, enquanto os assovios noturnos, quase estranhos, faziam a sinfonia durante o jantar dos três dominadores que estavam sentados à mesa, cada qual ao lado de sua alfa. Aragorne apenas observava as faíscas que vinham das tochas ostentadas nas laterais da sala de jantar. Rainha Collins não estava se sentido bem há uma semana, permaneceu em seu leito ao lado de Apsel, que a cuidava com maestria e lealdade. 
Mestre Olaf bem entendia aquele pesar de Tirel, ele sorveu mais um gole do vinho servido por uma das criadas, e observou Dominiquè levando o talher à boca com a mais profunda sutileza das deusas de Siv. Ele roçou sua perna na dela por debaixo da mesa, beliscando-a na gana de tê-la nua em pelo assim que deixassem a mesa. 
− Peço licença aos caros amigos, preciso me recolher. – disse Aragorne ao se levantar sem mexer em seu prato.
Seguiu direto para a sala onde se encontravam suas meninas. Abriu a porta e passou a observá-las. Ao notar a presença do Dono, ajoelharam-se. Todos os olhares seguiram para ele, parado na porta, mãos no cinturão, olhos indômitos, buscando fixar-se em algum ponto que lhe chamasse a atenção, e lhe dissesse que seria aquela, a escolhida da noite. Este era o único momento em que sentia prazer desde o momento em que se levantava da cama. Cerrou os dentes num impulso que caracteriza sua fome e sede por um corpo, uma pele macia que o abrigasse da solidão. Olhou para a morena clara de cabelos longos e lisos, olhos puxados cor de mel, tinha o estereotipo indiano. Ele observou suas coxas trigueiras saltando pelas fendas laterais da túnica, as mãos delicadas pousavam com a palma para cima sobre as pernas. Neste momento ela abaixou sua cabeça e o coração pulsou fortemente. Erine, seu nome. Era muda de nascença. Pouco ouvia, mas os olhos eram vorazes e felinos, o que atraiu Tirel desde o primeiro instante. Ele apontou para ela, que se levantou com graça e caminhou descalça até ele.
Ao se aproximar, cumprimentou-o num gesto e abaixou um dos joelhos até ao chão. Tirel tocou sua mão e a puxou fortemente para si. Com um dos dedos, acariciou o queixo afinalado e percebeu as bochechas dela rosarem. Sorriu. Era assim que gostava... Chegou próximo à orelha da menina e mordeu seu rosto e pescoço, sentindo o eflúvio apetitoso que vinha dos cabelos dela. Sem olhar para trás, puxou-a pela guia rumo à masmorra.
Ao ver a porta se fechar, a menina se arrepiou. Estivera poucas vezes com o Senhor, e ainda não se acostumou com a presença que a fazia atroar por dentro. Ele passou a mão pela fenda da roupa dela, tocando em seu sexo, estava como gostava, úmida e quente. Com o dedo anelar passou a manipular seu clitóris, endurecendo-o até que ficasse como uma pequena semente de alpiste. Voltou com a mão até aos lábios e provou o gosto dela, salivando. Com os dedos lubrificados, penetrou-a sentindo a superfície interna cheia de pontos, volúpia e pequenas contrações. Abrenhou-se dentro dela algumas vezes e a viu fechar os olhos em delírio. Seus gemidos eram baixos e abafadiços. Ele a agarrou pelo quadril e trouxe o corpo já entregue, junto ao seu. Levantou a túnica com cuidado e passou a esfregar a vulva sedenta sobre o volume voluptuoso que se formou em sua calça. Com uma das mãos, apertava o cóccix dela, rente a sua ereção, para baixo e para cima. Apertou os lábios pintados, sufocando-a, até ouvir a súplica na respiração. Levantou uma das pernas bem torneadas de Erine, e beliscou seu mamilo, torcendo-o com sofreguidão. Ao sentir sua calça umedecida pela excitação da fenda feminina que desejava ardentemente ser penetrada. Ele a soltou. Levantou seu maxilar com um toque apenas, mirou-a nos olhos, ela abaixou o olhar com timidez; desejava secretamente, gozar. Ele gostaria de dizer que sua vontade era de que ela o olhasse nos olhos, sem abaixar a cabeça. Ao invés disso, respeitou a deficiência auditiva da menina, franziu o cenho e persistiu em levantar novamente seu queixo, dessa vez, de uma maneira grotesca, firme... Ela deveria saber que as coisas não são como quer, e que deve ter desejos, e não vontades. 
Afastou-se a um metro e meio, e pôs-se a olhá-la detalhadamente. Era uma bela mulher ansiada de desejos, louca por um gozo profundo e desconexo. 

Os olhos dele me desnudavam em silêncio. Passei a retirar a parte da roupa por onde meu Senhor olhava, começando pelos ombros. A túnica logo correu por meu corpo em arrepios. Eu sabia que deveria estar preparada todas as noites para recebê-lo, mesmo sem saber quanto tempo demoraria a ser escolhida. Por este motivo, nem uma de nós havia colocado a roupa debaixo após o banho. E nesse dia em especial, algo me tocou por dentro, eu sentia que seria dele... Preparei meu banho com rosas brancas, e deixei que as pétalas tocassem meus mamilos, enrijecendo-os até que a água esfriasse. Sei que é proibido me tocar longe do Senhor, mas acabei não resistindo, e passei a me masturbar dentro da tina. Eu o desejo muito... Ardentemente... Ainda me encontro com fome e sede do corpo e toque dele... Ele não pode ouvir minhas palavras, mas, meus instintos, conhece bem... – pensou a escrava.

Ao fechar os olhos para ser tomada pelo seu Senhor, ela sentiu um par de mãos, puxando-a. Quase cegamente, fora agarrada pelos cabelos que deslizavam em suas mãos, e a colocou sobre uma mesa, de bruços. Acariciou cada polegada da pele em desalinho, que se arrepiava exibindo poros fartos. 
Abaixou a calça, cortejando a vista dela por trás, em todos os aspectos, cada curva ou textura. Achava lindo ver uma mulher com as partes íntimas dirigidas para cima, abertas, expostas, chamando-o... Passou por toda a parte da vulva dela, a glande que latejava. Encostava apenas, depois, deslizava com furor, penetrava um pouco somente, e a estocava com sofreguidão. Ele precisava fazê-la sentir o próprio corpo, prepará-lo, conhecê-lo. Uma prática sem preparo era como um prato vazio sem comida, não havia sentido. O corpo de uma slave precisa ser bem cuidado e estimulado. Ela precisa sentir a delícia que é, antes, durante e depois. 
Quando as pernas já estavam vibrando, ele a puxou pelos cabelos novamente, levando o rosto da menina para perto do seu, sentindo a respiração ofegante, a boca salivando, isso o excitava... O tesão dela era o seu. Os desejos mais secretos, a ânsia... Tudo... Puxou-a, esfregando a face delicada em seu abdômen, fazendo-a retirar com os dentes, o restante de roupa que lhe sobrara após a camisa desabotoada. Colocou de uma só vez, todo seu mastro dentro dos lábios pintados, fazendo-a arfar, empurrando profundamente. Deu passos para trás, levando-a arrastada pelo chão pelos próximos dois metros, abocanhada em seu pênis. Não suportando a pressão carnal, ejaculou, jorrando o esperma quente, quase a engasgando. 
Selvagens estavam seus instintos, com gana a pegou do chão e a colocou na Cruz de Santo André, rasgando suas roupas, amarrando com forças, pés, pulsos e tornozelos. 
Eu gostaria de poder ouvir agora... Daria tudo para escutar o tanger do chicote de meu Dono estralando em minha pele, derrapando pelo chão, voltando a me marcar com instinto febril de um corcel negro. Adoraria poder sussurrar para ele, meu desejo de correr minha língua por toda a extensão de seu pênis... Desejo gozar, olhando para ele... Desejo... – pensou Erine.
Seus pensamentos foram interceptados quando a chibata chegou até sua lombar, ardente... Gemidos tórridos saíam sem direção, em sons desuniformes. Novamente sentiu a pele ser tomada, em seguida, mordidas nas nádegas e mãos invadiam seu sexo, explorando como um descobridor de cavernas. 
Após a vigésima quinta chibatada, ainda com desejo de orgasmos, ela não se cansou. Ao desamarrá-la, Erine abriu as pernas, e caiu ali mesmo no chão. Tirel Apertou firme, os mamilos. Mordeu fortemente os lábios e o esperou... O orgasmo veio. O suor vertia pelo maxilar, gotejando dentro da boca. Mesmo sabendo que ela não o ouviria, ele disse:
− Goze, minha menina... Goze para seu Dono. Quero que me lambuze com seu desejo... – penetrou-a, macio, a princípio, mas não resistiu ao sentir que ela queria com força, quase a rasgando, até que o oásis vindo de todas as células nervosas dela drenasse num profundo e esperado gozo. 
Ainda afoito, embora combalido, ele a carregou até sua alcova. Banhou-a, cuidou das marcas nas costas e a fez dormir tal como um passarinho no ninho, entre as pernas dele, agafanhada em seus pelos e musculatura. Assim que ela apagou, levou-a para o quarto coletivo onde dormiam as demais slaves. 
Voltou para suas dependências, pensativo, eram poucas as razões que o faziam sair de si e esquecer a dor de viver, uma delas é ser Dominador. Talvez agora, um pouco mais cético, rústico, cuidador e protetor, porém sentia-se como um barco perdido no mar.
Buscou no travesseiro, o cheiro de Charlote, nada mais havia dela ali. Os anos somente deixaram registrados o quão importante a menina fora para a vida daquele Senhor, que esperava apenas o tempo correr, e quem sabe um dia poder reencontrá-la em outra dimensão. 


O dia amanheceu chuvoso, após a prática de equitação, adentrou o Castelo escondido atrás de sua capa de chuva, molhando o piso por onde passava. Foi direto até ao refeitório se certificar de que as meninas estavam tomando o café da manhã no horário previsto. Abriu a porta e a mesa gigante de madeira estava ocupada pelas vinte submissas. Num sonoro e amável gesto, todas deram bom dia ao Senhor, num único som. Os olhos correram pelo rosto de cada uma até chegar em Erine, que corou ao sentir o par de olhos sedentos pousados sobre ela. 
− Quero todas preparadas. Terão uma surpresa. – disse num breve sorriso.
Sem saberem o que esperar, apenas se entreolharam. 
Aragorne saiu, já retirando a capa e entrando na biblioteca. Assim que chegou, assustou com o semblante do Mestre Olaf que o esperava juntamente com Apsel, que chorava discretamente sentada a uma cadeira.
− O que está havendo por aqui? – admirou-se da cena encontrada.
− Caro amigo, a Rainha não se encontra em bom estado. – disse Olaf tentando escolher as palavras.
− O que houve com Collins?
− Ela não reage, Senhor. Por mais que tenhamos seguido as orientações médicas, nada faz passar a febre, e eu temo muito por isso. 
Aragorne deu passos a frente e sentiu-se impotente, do jeito que jamais se permitira a se sentir.
− O que podemos fazer?
− Eu não sei mais o que fazer, Senhor. Sinceramente estou muito preocupada. – disse Apsel, secando o rosto com um lenço.
− O médico diagnosticou a causa da doença? – quis saber.
− Sim Senhor. Pelo o que tudo indica, ela se contaminou por essa epidemia que matou muita gente no vilarejo. 
− A epidemia... – ele ficou tenso. – Tem certeza disso? 
− Sim Senhor. Eu fui proibida de entrar no quarto, assim como os demais serviçais. Os médicos pediram isolamento total. Com ela estão somente alguns enfermeiros preparados, com vestimentas especiais para cuidá-la. 
− Não posso acreditar nesta catástrofe! 
− Podemos pedir ajuda a Old. Temos alguns Mestres lá, com poderes de cura. – disse Olaf. 
− Não... Não sei se é uma boa ideia. – respondeu Aragorne se lembrando de que Siv fora despojada da aliança, e que agora em diante deveriam tomar suas próprias decisões. 
− Trata-se de nossa Rainha... Não há motivos para entono neste momento. Ademais, o Castelo pode estar enfestado pela peste. – considerou Olaf. 
− Temos que achar outra solução...
− Não há outra solução, caro amigo. A Rainha é sua irmã. Não há o que se pensar. – argumentou o Mestre.
Tirel caminhou pelo aposento pensando sobre as palavras do amigo. Parou por um segundo, respirou profundamente.
− Vamos pedir ajuda a Old. 
− Não temos mais a comunicação direta com eles. – disse Olaf.
− Eu vou até lá. – respondeu Tirel.
− Tem certeza? – perguntou o Mestre sabendo que poderia não ser bom para o amigo, pois havia a possibilidade de procurar por Charlote na Terra dos Mortos, que não é tão próximo, mas a caminho de Old. Isso poderia causar um novo caos para a segurança do Castelo.
− Sim. Parto ainda hoje. – dizendo isso, saiu da sala.
Preocupado, andou pelos corredores tentando entender a preocupação do Mestre quanto a sua ida a Old. Só então se lembrou da cidade de Siv. Charlote estaria na Terra dos Mortos, entrada proibida aos sivianos em missão fora daquela dimensão. Não arriscaria perder muito tempo por lá, sabendo do estado de saúde de Collins, mas seu coração acelerou pensando na possibilidade de revê-la. 
Entrou na sala de aula onde as meninas estavam em aprendizado, e pediu a vez para usar a palavra.
− Está cancelado nosso compromisso para esta noite. Precisarei viajar. Peço que todas se alimentem dentro dos aposentos, não saiam de lá até eu voltar. – disse preocupado com a possível peste que colocara a Rainha de cama. Correu os olhos à procura de Seren e não a encontrou entre as meninas. Preocupou-se. Saiu sem se despedir, olhando para os lados. Fora ao jardim, estranhando não tê-la visto na sala de aula, como de costume. Algo muito sério deveria ter acontecido para que não estivesse cumprindo as tarefas. 
Chegando ao jardim, olhou para todos os lados, não estava em lugar algum. Acelerou o passo e voltou para o Castelo, indo a passos apressados até o aposento onde ela dormia. Abriu a porta com sede e a viu deitada na cama, em delírio.
− O que houve, menina? – disse quase correndo ao seu encontro. 
− Sir, eu não sei... Tenho febre... – a voz dela estava fraca e muito baixa.
Ele não quis acreditar... Talvez não fosse nada além de uma gripe, mas como o local estava suspeito de ter sido acometido por uma epidemia, nada poderia ser impossível de acontecer. Temia pela menina, era muito frágil e franzina. 
− Fique tranquila, vou chamar um médico. – saiu apressado em busca de ajuda. Ele tinha mais um motivo para ir até Old. Não conseguia pensar na possibilidade de perder a irmã e a menina. Pediu a Olaf que cuidasse de seu clã até que ele voltasse, e que chamasse toda a equipe médica do povoado para ficar no quarto junto a Seren. Não demoraria a chegar, esse era seu objetivo, mais que uma honra, um compromisso consigo. 
Foi até seu aposento, abriu a caixa de madeira forrada por cetim, e tocou no cordão que tinha uma Medalha Tetragrammaton. Ao tocar na medalha, seus dedos se aqueceram. Aquela seria a chave para o outro mundo. Não deveria ter retirado de seu pescoço, talvez fosse por este motivo que o Castelo fora inundado pela peste. Sentia-se eternamente culpado por sua negligência. Rapidamente, colocou o cordão e saiu rumo ao portal. Ao passar pelas portas do Castelo, Olaf, em um dos cômodos, cumprimentou-o com um olhar de preocupação. Ele assentiu e seguiu seu destino.
Ao chegar ao portal, tocou fortemente na medalha, e algo o contagiou por dentro e por fora, com uma vibração incomum que retirava seus pés do chão. Fora transportado numa espécie de luz, que possuía uma velocidade inenarrável. 
Ao dar por si, estava chegando ao portal de Old, onde fora recebido por alguns Mestres. A paisagem não era tão diferente da Terra, porém o ar era mais leve, e a vegetação lembrava uma superfície aveludada, assim como as flores que tinham uma aparência excêntrica e em grande variedade, muito diferente das que já tinha visto. Não podia perder tempo, estava ali em uma missão muito importante. 
− Vim em busca de ajuda, a Rainha encontra-se muito doente, pode partir para a Terra dos Mortos a qualquer momento. Preciso dos curandeiros. – disse ele, confiante. 

Em uma sala branca por todos os lados que olhasse, estava um senhor bastante alto e de olhar sério. 
− Temos a ajuda que precisa, antes, porém, precisamos conversar. – disse o Ministro de Old, vestido em uma túnica de cor pérola cintilante. 
− Não tenho muito tempo, caro Ministro.
− O destino já está traçado, nobre amigo. Podemos ir, mas nada mudará o que é preciso acontecer.
Tirel ficou pálido. Não acreditava em destino, e sim, no que poderia fazer para mudar a ordem das coisas.
− Você novamente está em provas! – disse o Ministro.
− O que quer dizer, Ilustre?
− Quero dizer que o destino traça e, nós, pelo motivo lógico e sem alternativas, acatamos. Precisa procurar pelo Ministro de Siv, na Terra dos Mortos. Levarei você até lá.
− Mas... – lembrou-se de Charlote. Lembrou-se do tempo que urgia e a cada minuto passado seria tarde demais para ajudar Seren e Collins.
− Não há mais nada a se fazer. – disse o Ministro. 
Aragorne abaixou a cabeça e apenas acompanhou o Senhor. 
A viagem de lá a Siv fora a mesma que fez do Castelo a Old. Talvez um pouco mais curta. Não deu tempo de pensar muito, logo chegara. Não sabia o que esperar. Sentiu receio pela primeira vez em sua vida. Não sabia se estava preparado para rever Charlote ou perder Seren. Tudo o incomodava. 
Quando avistou a cidade construída por cristais, percebeu que seus pés não pisavam no chão, e sim, deslizavam. Qualquer ruído ali era um grande barulho, como um vidro se espatifando no chão. Tudo era limpo e transparente, quase irreal. Ao contrário da temperatura amena de Old, A Terra dos Mortos era fria. Seguiram por quinze minutos entre as paredes cristalinas do Ministério. Vira algumas pessoas passarem, mas nem uma delas olhou para ele, sequer perceberam sua presença. Vestiam aventais que iam até os pés, e usavam turbantes na cabeça. O corpo era de uma substância volátil, ora ficavam bem visíveis, ora quase desapareciam. Assim que se olhou para fazer uma comparação, assustou, seu corpo também se encontrava do mesmo modo. 
− Toda massa é modificada para adentrar ao Mundo dos Mortos sivianos, caso contrário, seu corpo físico não suportará. 
− Não compreendo...
− Não é necessário compreender. – disse o Ministro de Old, que também estava do mesmo modo como os demais. 
Assim que chegaram ao final do corredor, viraram à direita e avistaram, dentro de uma espécie de capela, um ser vestido com uma túnica verde-água e longos cabelos grisalhos.
− Eis o Ministro de Siv. – disse o Oldiano, que desapareceu assim que acabou de falar.
Aragorne se recordou dele, estava presente na cerimônia do coroamento de Collins. 
− Muito prazer em revê-lo. – disse Tirel, olhando para todos os lados, a angústia o exauria.
− Sopite seu coração, bravo siviano. – disse o Ministro em uma voz suave e apaziguadora. 
− Charlote... – abjugou sem querer o nome dela de seus lábios.
− O caro amigo veio em busca de ajuda ou atrás da menina?
− Desculpe, Ministro... É claro que vim buscar ajuda para salvar nossa Rainha e a menina Seren. 
O homem o olhou profundamente, como se quisesse revolver sua alma, e certamente seria capaz de muito mais, caso desejasse. A alta envergadura de sua colocação na Terra de Siv não era um acaso. Tratava-se de um ser de luz e detentor de poderes paranormais, muito além do que qualquer um pudesse supor. 
− Convido-o a um passeio. – disse ele já se movimentando.
− Convite aceito. – respondeu Tirel, tentando se concentrar no que fora fazer ali. – Porém, não tenho muito tempo... – disse preocupado com Collins e Seren.
− O amigo nasceu aqui, e ainda não conhece o sistema? Nosso tempo não corresponde ao tempo de vinte e quatro horas. Estamos o tempo todo em tudo, e tudo está do mesmo modo em nós. 
Tirel parou por um momento... Tentava se recordar das veredas daquele local. 
− Sim, Mestre, porém... 
− Porém a vida como dominante ocupou seu passado, presente e futuro.
− Talvez seja isso. 
Sobrevoaram sobre o piso cristalino por alguns minutos até que alcançassem o ar livre. Os olhos do dominador brilharam. Devidamente se lembrara daquela luminosidade jamais vista em qualquer outro lugar do Universo. Estava no espaço, não havia nuvens, mas não na Terra de Siv. Lá, elas se encontravam tão próximas que poderiam ser tocadas. Assemelhavam-se a plumas suaves. Todo o local era cercado por cachoeiras e cristais. Não havia terra, e, sim, uma textura muito alva, parecida a algodão recentemente colhido. Pássaros cor-de-rosa e lilás sobrevoavam por todos os lados. Era de uma beleza incomparável. 
Seguiram até alguns bancos feitos de um material transparente semelhante ao cristal, logo abaixo de uma árvore que brotava uma nascente d’água. 
O Ministro se sentou e o convidou a fazer o mesmo.
− O caro amigo poderia responder sinceramente a todas as minhas perguntas?
− Obviamente.
− Assim será mais fácil a compreensão.
− Elas possuem chance de sobreviverem? – perguntou diretamente.
− Pelo o que ouso a lembrar, não seria eu, a fazer as perguntas? 
− Estou apoquentado, Mestre. 
− Não há razão de ser... Não existe morte para nós, e sim, missão. A morte em nosso mundo apenas registra o final de uma missão, para que outra tenha início. 
− Estou disposto a entender, Mestre, mas não consigo apurar suas palavras.
− Quero dizer que ninguém está lá por um acaso. O seu berço é aqui, na Terra de Siv. Lá se encontra apenas o poder e a Administração de nosso mundo. Caso a Rainha fizer a partida, saberá que ela estará aqui, entre os seus, até o próximo momento de voltar.
− Sim, mas... ficaremos sem a Coroa?
− Acredita nisso?
− Não sei mais em que acreditar... E a menina... Ela morrerá, não é siviana. 
− Ela cumprirá também sua missão, porém como humana.
Tirel abaixou a cabeça e buscou por respostas. 
− Ela faz parte de mim... – disse ele, num tom triste.
− Cumpriu seu papel com ela?
− Tenho feito o meu melhor.
− O seu melhor corresponde ao seu papel?
Aragorne o encarou, sem medo de responder.
− Sim, Ministro. 
− E seu coração, corresponde ao seu melhor?
Então ele se calou. Não poderia dizer que amava Seren como um dia amou Charlote, mas não mentira quando disse que a menina era parte de si.
− Corresponde, Ilustre. Eu a estimo pelo o espaço que conquistou dentro de mim. Isso não quer dizer que...
− Não precisa se comparar a nada. O importante é que tenha cumprido seu papel de Dominador, e não de amante. 
− Não a vejo como amante, a vejo como minha. – disse firmemente. 
Dessa vez foi o Ministro que se calou. 
− E quanto a Charlote?
− Eu a vejo como a luz que um dia iluminou a minha vida. – seus olhos brilharam. 
− Você a via como sua? – o Ministro o olhou com um olhar desafiador. 
− De todos os membros do meu corpo, Charlote era o meu coração. 
O Ministro tocou no ombro dele, expressando considerações. 
− Como disse, tudo tem um sentido em Siv. De certo, se tivesse sido por outro modo, não teria jamais a acepção que hoje tem. 
− Eu a sinto. Ela jamais esteve longe de mim. 
− Seria capaz de novos desafios?
− Quais?
− Nunca se esqueça de que Siv deve vir sempre em primeiro lugar. Você foi um escolhido para estar no Castelo, e zelar por nossas tradições. É uma de nossas referências em uma terra distante, aquela que ainda luta por nossa causa.
− Quais são os desafios?
− Terá de lutar novamente pela Coroa! – o Ministro disse de uma vez por todas.
− Isso significa que... – ele desejou não terminar a frase.
− Significa que Collins está partindo para cá. 
Mesmo sabendo que a morte não existia para os sivianos, seus olhos encheram-se de lágrimas, pois vivendo no Castelo, envolto pelas tradições que o cercavam, não havia como pensar na separação, e na falta que a irmã lhe fará. 
− E Seren?
− Um Dominador muitas vezes precisa perder para ganhar.
− Ela não é siviana... Ela é muito jovem... 
− Você poderá fazer uma escolha...
− Uma escolha?
− No final. Ainda nem começamos.
− O que devo fazer?
− Merecer a Coroa de Siv, que poderia ser sua por sucessão, porém, existem outras questões em jogo. – ele parou por um momento e observou algum ponto na imensidão. – Charlote deu a vida em troca de sua liberdade como Dominador, e a liberdade a Siv. O que você daria a dela? O que daria por Siv?
Ele abriu a boca para responder, mas antes observou algumas crianças correndo em algazarra. 
− Eu retribuiria tudo que ela me deu, com minha própria vida. 
− O amigo tem certeza do que está falando? Cuidado! As palavras têm peso e condão de realização quando jogadas no Universo.
− Eu faria qualquer coisa para tocá-la novamente...
− E a Coroa de Siv? Trocaria por Charlote?
− Trocaria meu reino, minha paz e minha vida. 
Um dominador poderia não chorar, mas naquele momento, um nó apertara sua garganta, como se fosse ele, o refém de um sentimento que o abatesse tão profundamente, o qual seria incapaz de não fazê-lo. 
− A proposta é, estará encarregado pela conquista da coroa, e esta se dará através de uma transportação à vida futura. Uma realidade que não se passa nem em sonhos por sua mente. Algo totalmente diferente do que já viveu como Dominador. 
− E o que devo fazer para conquistar a Coroa?
− Reconquistar Charlote. 
− Não estou entendendo... Irei para o futuro e...
− Charlote estará lá, para que desempenhe sua função. É muito fácil reconquistá-la aqui, entre as duas dimensões, com os sentimentos latentes, lembranças... Um sabendo sobre o outro...
− Ao nos reencontrarmos, não iremos nos reconhecer?
− Esquecerão todo o passado durante a missão, será como se sempre estivessem ali, mesmo diante da confusão psicológica. As adaptações serão feitas dentro do psíquico de cada um enquanto forem programados para adentrarem outra época a centenas de anos vindouros. Saberão o que fazer através da intuição. Os sinais no corpo, que os identificam como afins, desaparecerão. Conservarão, a priori, os mesmos nomes, mas terão de se adaptarem à modernidade que lhes mostrará um mundo totalmente novo para vocês, mas como disse, a programação será feita no cérebro de cada um será como uma ferramenta adaptadora. Saberão fazer coisas que hoje nem sonham. De algum modo, os fatores daquela realidade exigirão de vocês, os melhores esforços. Caso não consiga cumprir, voltará e perderá o Reino. É sua última chance de ser o melhor Dominador que já fora um dia. Deve agir dentro da honestidade, integridade e honra. Estará num tempo moderno onde as pessoas são convencidas pela ilusão, prazer fugaz, mediocridade e ego. Perceberá que muitas das vezes usam das práticas para se esconderem de alguma deficiência, ou do mundo em que vivem. Nossas práticas estarão por muitas vezes, deturpadas da essência. Uma de suas maiores responsabilidades será levar a honra e o respeito num tempo tomado pela promiscuidade. Você estará lá, perto ou longe de tudo que mais deseja. Só depende de você, o resultado. 
− E depois? Quando tudo se perfizer?
− Jamais saberemos o que irá acontecer se não passar pela vivência. Arkadius, estará lá... Cuidado! 
− Arkadius? – ele franziu o cenho tentando se lembrar, mas nada vinha em sua mente.
− O lider Bárbaro siviano. Ele quer o trono, e poderá tomá-lo, se conquistar o coração e a entrega de Charlote.
− Eu não sei quem é... Arkadius... Para mim, os herdeiros do trono são os que estão dentro do Castelo.
− Nem tudo é o que parece. Qualquer siviano pode ser Rei, desde que mereça esta posição. Ser herdeiro não significa uma definição quanto à Coroa, isso significa apenas que você tem chances a mais.
− Quem é Arkadius, Mestre?
− Quem retirou Charlote do Castelo. – ele disse num tom de preocupação, sabendo que não poderia falar muito, e que talvez, tenha dito demais. − Agora vá! 
− Quando devo partir para o futuro?
− Saberá. Seu coração dirá.
− E Seren? Como a curo?
− Com amor. 
− E as meninas?
− As meninas estarão bem... Não se preocupe quanto a elas. 
Dizendo isso, o Ministro desapareceu num sorriso. Tudo ao redor de Tirel passou a girar, entrando numa ressonância que o fez despertar apenas dentro do Castelo. 


Capítulo 2

Ainda zonzo pelas circunstâncias, Tirel correu assim que pôde sentir seus pés nos chão. Não sabia ao certo a quem socorrer primeiro, as informações dadas pelo Ministro o deixaram aturdido. Não sabia exatamente qual era o tipo de sentimento que tinha naquele momento, sabia apenas que eles transbordavam em um vai e vem de sensações. Antes de se recuperar, de longe vejo a movimentação dos criados, submissas e seus caros amigos Dominadores. Estranhou. 
Aproximou-se, parecia não ser visto. Viu Apsel jogada ao chão, chorando com as mãos entre a cabeça. Chegou um pouco mais perto, e ela o olhou com os olhos inchados e vermelhos.
− Ela se foi. 
Foram as únicas palavras ditas. Continuou parado, olhando o nada. Era estranho. Talvez a frustração tenha vindo por não ter sido bom o suficiente para salvá-la, mesmo sabendo que neste momento está segura, e voltou para os seus. Agachou-se de frente a menina, e buscou nos olhos dela, a resposta que os seus queriam, para as perguntas que nem mesmo ele saberia formular. 
− Ela estará bem. – disse, com a voz um pouco rouca, e por dentro, uma aflição contagiante. 
− Minha Rainha levou consigo toda m’alma. Sei que não posso compreender o ponto de vista dos sivianos diante de uma situação desta, mas eu... Eu sou uma pessoa comum, jamais voltarei a vê-la. Embora pressinto que ela voltará... – após essas palavras, desabou num choro profundo, abaixando a cabeça próxima ao colo dos seios. 
Tentando confortá-la, sem saber se deveria, ele a trouxe para perto do seu peito, e pela primeira vez, depois de muito tempo, sentiu novamente o esmero que a tinha quando era sua. 
Um Dominador toma para si, esse tipo de situação, como uma afronta. O orgulho impera, fere e machuca. Perdê-la para sua própria irmã era algo que só havia se amenizado no vasto sentido da palavra. 
Abraçou-a com compreensão e a convidou a se levantar de onde estava. Se, entregar-se àquela dor, demoraria muito mais tempo para se recuperar.
− Não sou mais seu Dono, mas tenho por você um imenso carinho, Apsel. E por este motivo lhe peço, vá tomar um banho, tente encarar os fatos como uma submissa faria ao ver sua Dona partir, com honra e dignidade, por todo desvelo que ela lhe dispensou. 
Ela apenas concordou, balançando a cabeça e acatou o que ele a pediu. 
Era agora seu momento de se despedir de sua irmã, e dizer no silêncio das palavras, que tinha muito orgulho por ela ter sido quem foi. Mas ainda deveria ver Seren. Ela neste momento precisava de toda sua atenção. Era necessário ser forte, ágil e se sentir seguro de seu papel. Muito mais que um Dono, sentia pela menina um carinho paternal. 
Foi mais rápido que pôde ao seu quarto, e a encontrou delirando sobre a cama. Chegou mais perto e tocou sua mão, beijando-a na testa.
− Estou aqui... Jamais vou te abandonar... Jamais...
Ela sorriu sem abrir os olhos, e pela face deixou escorrer uma lágrima encorpada. 
− Reaja, minha princesinha. – disse, afagando seus cabelos e beijando seu rosto.
Algo o tocou por dentro sobre o que deveria fazer, e assim o fez. Tirou suas botas e o cinturão, e se deitei próximo a ela. Neste momento ela abriu os olhos, estranhando, quase reprovando sua atitude, e ele sabia o motivo.
− Não se preocupe, não precisa temer. Estou escudado. – eu disse tocando na medalha em meu cordão no pescoço, que reluzia de modo florescente. 
Ela o abraçou tão forte, que a febre que saia de si, aquecia a pele dele. 
− Sir... – a voz era muito fraca, quase comparada ao fio de uma linha. – Recite um verso para mim? 
Lembrou-se de todas as vezes que ela o fez por ele, e em muitas delas com o afã de consolá-lo ou apenas saciar uma vaidade dele. Fechou seus olhos para ver se recordava de algum que mais gostava. Foram tantas e repetidas vezes que Seren os recitava que foi capaz de gravá-los. Em outros momentos, ele mesmo ia até o livro, abria a página de algum de seus preferidos e lia, pensando em Charlote. 

“A menina passeia em meus pensamentos
Em névoa e espaços 
Que me revelam teus segredos bem guardados.
O que era petrificado e morto
Tomou vida quando olhei para teu corpo
Corpo teu, que é meu...
(Todo meu)
Nada mais importava
O mundo se dissipou, enevoou...
És somente tu em meus olhos
Como imagens soltas
Como gaivotas que descobriram
Que voar é bom...
Abracei-te contra o peito
Desordenei os anéis de teus cabelos
Que bailavam formosamente ao rumor do vento
Buscando o meu toque
Tocando-me como seda...
Lindos olhos... Ah, os teus olhos...
Como a quero...
Tudo em ti, fala...
Desde o suor descendo 
Em passos lentos pelas suas pernas...
Os músculos que se contraem
Que me abraçam... Falam...
Eu ouço seus murmúrios...
Ouço o seu sorriso...
Ouço os sons que saem de ti
Todos em mito – rito!
Estamos perdidos em um labirinto sem volta
O conjunto de tuas complexidades
Extasiam-me, deixa-me louco...
Mordo o céu para não deixar-te ir
Dou-te o pulmão, os rins e as vísceras
Não há barreiras, nem fronteiras...
Tudo se encontra exequível
Questões insolucionáveis...
Quero perder meu tempo 
Escorregando em lodo sedento – denso!
Registrou-se em mim sendo-te uma quase reticência
Tão simples – uma incógnita no deserto
Benfazejo dom de me transformar
Em carne e alma.”


Ao terminar de recitar, olhou para a menina, ela estava dormindo. Tentou refletir sobre to que tem envolvido os dois, e se questionou se tem feito seu melhor. Por mais difícil que tem sido, fez o possível para se tornar presente, apesar do inconformismo com os infortúnios, e por que não dizer, do destino que o afrontou. Lidar com o que não aceita sempre fora seu maior desafio. Não conheceu outra realidade, sem ser a de todos os seus desejos realizados, criaram-no para ser Dominador. Este é o lema em Siv para toda criança que nascesse do sexo masculino, algumas meninas, como Collins, eram exceção, e isso se manifestava com o passar do tempo. Mas o fadário ditava as regras em todo e qualquer confim. Não existia domínio para esta questão. Uma hora ou outra deveria enfrentar o que não conseguia modificar. Perder uma pupila era perder muito de si, sem se reconhecer. Era se esfarelar aos poucos, diante da luz do dia e das trevas do anoitecer. Não existia ninguém para socorrê-lo neste momento. Faria qualquer coisa para que Seren não fosse embora de sua égide. Não suportaria ter de perder mais uma menina, e no caso dela, isolado, uma pequena feita de mortalidade, jamais a encontraria novamente... Precisava salvá-la. 
Aconchegou-a mais em seus braços e tentou silenciar a mente, até que tudo se acalmasse dentro de si, e pudesse apenas viver aquele momento. Estava quase se entregando ao sono, perdendo-se e solvendo-se num ciclo comungado pela liberdade de ser tão somente um homem de mãos atadas... Quando os sinos tocaram, e a angústia retornou com garras e exatidão. 
Deixou-a com diligência, vestindo suas botas, desejando pela última vez que se recuperasse. Colocou seu medalhão sobre a fonte dela... Não sabia rezar. Nem teria a quem pedir. Apenas desejou sua cura com tudo que havia em si. Saiu apressadamente.
Ao cruzar o salão principal, viu a cerimônia póstuma em favor de Collins. Como toda mulher não-siviana, Apsel chorava, toda vestida de preto, como estavam vestidas as demais submissas. O véu que caía sobre sua face estava quase colava às lágrimas. Os amigos dominadores se postavam um pouco a distância do manto onde se encontrava os restos mortais de Collins. Uma música renascentista tocava ao fundo, por um grupo de violinistas. As velas foram colocadas em cada ponta da mesa coberta por madrepérolas. As flores mais vivas e bonitas do jardim coloriam o colo de Collins, que repousava apenas, essa era a convicção. 
O pesar que Tirel sentia não era o mesmo atribuído ao que sentiu quando Charlote se foi, então percebeu a diferença de ser um Dominador e um cidadão siviano. 
Uma criada trouxe em passos ritualísticos, uma espada a qual Aragorne tomou, e cruzou em frente a seu peito, cumprimentando a memória de Collins e aos presentes, em seguida foi até o caixão, e cruzou por duas vezes a katana sobre o corpo da Rainha. 
− Prometo honrar seu nome e seu reino, minha Rainha. – disse em tom de agradecimento.
Passaram o tempo de uma hora, aproximadamente, em absoluto silêncio, apenas ouvindo a música e agradecendo em pensamento, pelo reinado feliz que a Rainha os concedeu. 
O cortejo para o envio de Collins a Siv foi logo em seguida. Aragorne aproximou-se de Apsel, e ofereceu seu braço, o que foi aceito em profundo comisero e deferência. Ofereceu seu lenço para que pudesse secar o rosto, ela o agradeceu com o olhar perdido. E assim se despediram da Rainha, que os deixou com honra, respeito e reconhecido decoro. 
Todos seguiram para seus aposentos, e Tirel voltou para Seren. 
Assim que entrou, ele a viu sentada na cama. Seu rosto estava sereno e suas mãos pousavam suavemente sobre as pernas. Ela sorriu, ele retribuiu. Pegou-a no colo e a levou para seu quarto. Passariam a noite juntos, e o tempo que fosse necessário até ter certeza de que ela não o deixaria. 


Após os sete dias de luto no Castelo, tudo passou a transcorrer em seu ritmo normal. Seren se restabelecia aos poucos, mas ainda não frequentava as aulas. Sentia-se enfraquecida, e seu espaço havia se tornado apenas o quarto de seu Senhor. Tirel temia que ela saísse e pudesse contagiar as outras pessoas. Passaram muitas horas juntos, enquanto ele lia os versos que ela mais gostava. Dava-lhe comida na boca, embora ela não sentisse fome, mas não desobedecia, mesmo com enjoo ou ojeriza do alimento, comia o que lhe era dado. 
Aragorne procurou não me aproximar das meninas a fim de protegê-las, pois não sabia até qual ponto estava seu quarto enfestado pela epidemia. Ele se encontrava protegido, mas as demais pessoas, não. A Medalha Tetragrammaton se restringia apenas à sua proteção. E de forma inexplicável, curava Seren. 
Com o passar dos dias, após uma limpeza geral em todo o Castelo com produtos recomendados, Tirel foi saindo aos poucos de sua alcova, e tentando se desdobrar para recompensar o tempo que se manteve afastado das meninas. 
Na vigésima quinta tarde, após a ida de Collins para a Terra dos Mortos, Tirel viu Apsel seguindo pelos corredores, vestida ainda com seu uniforme de luto, segurava algumas valises. Sentiu no peito um aperto que desejou recuar, mas não o reprimiu. Ela estava deixando o Castelo. Pararam um de frente ao outro, e ele se ofereceu para acompanhá-la a fim de atravessar o portal. Assim que o imenso portão de ferro se fechou atrás de suas costas, ele segurou firmemente nos braços da menina, olhou vagarosamente em seus olhos e a beijou na testa.
− Eu desejo que siga com tudo que neste momento te fará forte. – desejou a ela.
− Obrigada por me ajudar a me descobrir, e eu saber pelo menos uma vez na minha vida, quem sou. E disso, jamais esquecerei. Grata. – ela se ajoelhou e tocou as mãos do Dominador, beijando-as. – Gratidão, Senhor. 
Então se levantou, olhou-o nos olhos e partiu, sem mais olhar para trás. 
O vento lá fora assoviava e as folhas vinham de encontro com o rosto dele. Naquele exato momento algo o tocava visceralmente. Porém, jamais saberá o que significava. Não neste agora. 
Entrou no Castelo, e sabia que sua missão urgia. Só não sabia quando se daria. Para se precaver, precisava de um grande momento com suas meninas, pois não saberia como ficariam em sua ausência. O Ministro prometeu cuidá-las, mas não o disse se voltaria a vê-las. Pela primeira vez, perdeu totalmente o controle da situação. Contava apenas com a boa sorte.
Foi até o grande aposento onde se encontravam, e entrou cabisbaixo. Isso também doía muito em fazer. Perder parecia ser um lema maior em sua vida. A única coisa que o fazia se sentir melhor era saber que muitas vezes precisava perder para ganhar, e seja como for, valia tudo pela honra. 
Entrou com cautela e levantou o rosto para olhá-las. Foi recebido com sorrisos e uma canção de agradecimento. Em seguida, se ajoelharam e esperaram a ordem. Mas naquele dia, não havia um mandato. 
− Quero comunicar a todas, que estou em missão na busca do Trono de Siv, e precisarei me ausentar por tempo indeterminado, mas que estarão cuidadas e protegidas, como deve ser. Sei que não é fácil e ouvir o que tenho a dizer, mas não me restou alternativas. Somos sivianos, todos nós. Sabemos o que significa uma Coroa, e o que precisamos fazer para merecê-la. Estamos prestes a viver ou morrer por essa sina. Mas tenho algo para esta noite, dormiremos juntos. Sem precisar escolher. Gostaria muito que soubessem que vocês me sustentaram durante este tempo que se passou. Veio de vocês, a força que eu precisava para atravessar este período, e por isso levarão para sempre meu respeito, minha honra e gratidão. Eu sou um Senhor feliz neste exato instante, pois tive ao meu lado, não apenas escravas, mas mulheres que possuem o poder de construírem, sobretudo, manterem uma fortaleza. 
Abriu os braços e ficou assim, esperando que adivinhassem o que queria. Fechou seus olhos e foi imediatamente abraçado pelas vinte meninas. Esparramaram-se por todo o aposento. Sentiam-se felizes por saberem que seu Senhor está lutando por elas e por todo siviano que um dia passasse por este Castelo e por toda Siv. 
Aragorne tirou a roupa delas, uma a uma, olhando internamente. Não sabia dizer, mas faziam parte de cada sentido existente em si. Nesta noite não teriam chicotes, amarras, vendas, velas ou masmorra. Ele as amaria, profunda, voraz e inteiramente. 
Quando o Senhor se deitou, foi servido por ventres e cheiros. Tocou em seios fartos de moldes diferenciados. Beijou os lábios de uma só, ou de algumas juntas. Sentiu o gosto de pele ao passear pelos corpos de suas meninas que se revezavam sobre o Dono, deslizando-se em suas pernas, tórax e pescoço com fendas umedecidas, que recebiam os dedos dele, tocando-as, sentindo-as. Alguns corpos esculturais, outros não, mas de beleza isolada, e quando se juntavam, eram uma só. Percebeu os arrepios dos poros, a força delas o contagiava.
Saciou os desejos individuais. Tocava fortemente em pescoços, nádegas e sentia os líquidos, molhando-o suavemente. Precisou se controlar, contorcendo-se por muitas vezes, mas não gozaria até que estivessem saciadas. Não era um homem, e sim, um dominador. 
Penetrava em uma enquanto tocava a outra, a que estava em pé, a que colocava silenciosamente a vulva doce em seus lábios. Mamilos enrijecidos, gemidos sufocados, esfregando-os uma nas outras, línguas dançando sobre peles... Tinham gostos e personalidades diferentes, e ele as conhecia intimamente. 
Não seria justo gozar apenas dentro de uma, seria uma afronta... Elas se organizavam a volta dele enquanto o chupavam, e quando seu líquido estava quase sendo jorrado, esguichou fortemente rumo a rostos e bocas, que o lambiam, lambiam-se entre si, uma a outra, até que nem uma gota fosse cúmplice daqueles lençóis. 

Quando o dia amanheceu, o cenário era lindo. Estavam todas dormindo, exceto Erine, que levantou a cabeça e pôs-se a olhar o Senhor. Assim que ele se levantou e passou a se trocar, ela ainda estava lá, olhando-o sem pestanejar. Dos olhos, uma lágrima insistia em cair, mas ela não a deixaria, é siviana. Persistiu no olhar, e uma ponta de desejo em abraçá-la o tocou. Poderia não ser justo com as demais, mas a chamou. 
Ela se levantou nua, toda morena e pôs-se a andar na ponta dos pés em direção a Tirel, tendo o cabelo muito negro e longo, encostando-se a suas curvas. Erine ficou de frente a ele, e o ajudou a abotoar a camisa; arrumou a gola, deslizou a mão delicada por todo o tórax do Senhor, na tentativa de desamassar a fazenda. Após terminar o que fazia, voltou a olhá-lo e se ajoelhou, beijando suas botas. Puxou-a docemente e tocou em seu rosto afável. Ela não o ouviria, sabe disso, mas falaria de qualquer modo.
− Quero que sempre guarde consigo esse sorriso tão encantador. 
Como resposta, ela sorriu novamente e fez menção em dizer algo, mas as palavras não saíam. Ela tentou várias vezes, e seu semblante era de frustração, pois certamente esperou a vida toda por este momento, ou ensaiou sozinha na expectativa de ser perfeito. Então com os olhos, lábios, mãos, traço nos rosto, balbuciou:
− M-eeeu Se-nh-or. 
Impossível! Como conseguiu falar? Não escuta, não aprendeu as palavras... Então ela levou a mão até aos olhos do Dono, deslizando como pluma, em seguida, na boca. Ele entendeu que ela lia os lábios, e certamente tentava imitar os movimentos através das ondas sonoras. 
Sorriu e a abraçou. Em seguida, saiu. 
Ele sabia que aquele dia era o momento marcado para sua viagem, e a qualquer momento deveria embarcar, seja lá como fosse. Então preferiu o silêncio. Caminhou pelo jardim, pelos escombros do Castelo, pelas salas que nunca mais havia entrado... Era estranho pensar que não precisaria levar bagagem, e sim, tudo que era. Então parou para pensar em Charlote. 
Como seria esse reencontro? Será que a reconhecerei? Será que me reconhecerá? Como faremos para nos reencontrar? Em qual local? Em qual dia? – perguntava-se.
Passou pela biblioteca, e lá estavam seus amigos Dominadores. Ficou um tempo olhando-os, até que o convidaram para entrar.
− Está preparado, caro amigo? – perguntou Olaf, já sabendo certamente sobre o feito. – Recebemos mensagem de Siv, para prepararmos a ida das meninas. Estamos torcendo para que consiga realizar sua missão, e trazer para nós, a Coroa, que o espera por merecimento. 
− Grato, nobre. Mas não é tão fácil assim... Confesso que...
− Está com algum receio? – emendou Fendis.
− Confesso que sim. Não sei para onde vou, e o que preciso fazer. Penso apenas que é necessário, e se assim for, então preciso estar pronto. Fiquei sabendo sobre Arkadius... Eu não conhecia a possibilidade deste Bárbaro disputar o trono.
− Eu sabia... – disse Olaf. – Eles lutam há séculos pelo mesmo objetivo que nós, a diferença é que não estão dentro do Castelo. Ele... Arkadius foi quem jogou a lança em Charlote. O Ministério não queria que isso fosse disseminado, para que uma nova guerra não se instaurasse, porém, meu amigo, a guerra está dentro de nós. 
Tirel sentiu os nervos tomarem conta de seu ser. 
Ele não tomaria meu trono, nem minha escrava. Eu não permitiria. – pensou consigo mesmo.
− Um siviano jamais se engana com o que deve fazer. Quando chegar o momento certo, o nobre saberá. – disse Olaf. – Aqui não permitiremos que um Bárbaro tome nossa herança. O amigo tem minha palavra.
− Em qualquer lugar, amigo... Em qualquer lugar. Jamais perderá sua essência. Ela é seu guia. – disse o Mestre. 
− Estará no lugar certo... No lugar onde está a Coroa de Siv. – disse Fendis.
Com essas palavras, apertaram-se as mãos num cumprimento, e Tirel seguiu seu destino.
Ao chegar em seus aposentos, Seren estava na janela. Algo a perturbava, ele precisava descobrir o que era. Tocou em seu ombro, e ela se virou.
− É estranho, Senhor, mas me sinto tomada por uma angústia... Como se um medo se apoderasse de mim, e eu não soubesse lidar com ele.
− Aconteceu alguma coisa?
− Não Senhor, mas uma adrenalina me invade. 
− Não se impressione com nada. Tudo está bem. 
− Sim, Mestre, agradeço por me confortar. 
− Não se esqueça, nunca a abandonarei...
− Eu acredito fielmente no Senhor.
− Eu te adoro, menina...
Dizendo isso, algo parou no ar, uma luz invadiu sua visão, e nada mais pôde ouvir ou perceber, apenas um vento forte soprando, retirando-o dali. 



Anos depois da chegada dos sivianos em um mundo distante, eles vieram como tinha sido prometido, já chegaram adaptados e programados para lidar com a vida moderna na cidade de Vitória-ES. Nesta ocasião, mesmo nunca tendo visto um carro de quatro rodas, eles já sabiam como dirigi-lo. Houve uma preparação a qual os obrigara a dormir durante certo tempo no espaço, até que os interlocutores depositados em todas suas células passassem a interagir, dando a eles o conhecimento de dirigir um carro, manipular um computador, andar pelas ruas da cidade sem se perderem e exercerem a profissão que cada um deveria se dedicar. Acabaram sendo programados para viverem na atual circunstância que os abrigava. Até mesmo quanto aos costumes e linguajar, foram adaptados. 

Houve tempo o suficiente para se adaptarem ao mundo novo, construírem sua vida, e se prepararem para a missão, mesmo sem terem consciência disso. Quando chegaram, era como se despertassem de algum sono profundo, acordando já com as ideias de tudo que precisariam fazer para se manterem. Tudo foi muito bem planejado no Ministério de Siv, que também buscou a ajuda em Old, para a construção dos interlocutores que tinham data certa para entrarem em vigor, e depois os levarem de volta.
Conservaram seus nomes e aspectos físicos de quando vieram. Assim como todo siviano no curso normal de qualquer missão, dentro ou fora de Siv, conservaram seu aspecto físico sem envelhecerem. As personalidades foram adaptadas aos costumes, e, principalmente, para o cumprimento da missão, e isso mais se acentuou em Charlote, que serviria como o instrumento da prova. 
O tempo poderia passar para todos, menos para eles, pois seus corpos e psíquicos foram meticulosamente preparados para tanto. Foram trazidos para uma realidade obscura, mesmo à luz da cidade, as pessoas andavam como se desconhecessem a si próprias. O belo e o sagrado se baseavam em números diante da quantidade de coisas que conseguiriam obter através de um poder enganoso.

Charlote formou-se em Publicidade. Não tinha muitos amigos, mas os poucos que conservou não conseguiam acompanhar seu ritmo frenético em uma carreira bem sucedida, mas optou por um mundo quase deserto em seus percursos estratégicos diante da solidão intima, era o que a trazia paz, ninguém parecia entender o que ela mesma traduzia como insatisfação. Tudo lhe causava uma sensação de que faltava algo, e muitas vezes essa busca obscena era confundida com ambição, assim muitos a viam o tempo todo realizando mil e uma tarefas no afã de se sentir completa, mas a realidade é que isso nunca acontecia, certamente era um segredo seu. 
Não conseguia se relacionar. Poucos foram os namorados que teve. Ultimamente era noiva de Ito, um poeta nas horas vagas, que a cobria de mimos e tentativas de realizar suas vontades. Ela tinha a sensação de estar apenas cumprindo com os costumes, assim como qualquer pessoa daquele mundo novo. Não queria se sentir estranha, mas sabia que existia em si, algo diferente que a conduzia para lugares e coisas incompreensíveis. 
Deixou o celular tocar até cessar enquanto olhava a pilha de papéis sobre sua mesa. Ito, seu noivo, desejava ir ao teatro naquela noite, mas ela preferia iniciar o projeto que havia recebido na semana passada. Tudo que pensava, não fazia conexão com a proposta de trabalho. Pesquisou algumas fontes e pouco encontrou a respeito, não o suficiente que tivesse embasamento convincente. 
O projeto se chamava “Clube 167”. Trata-se de uma casa noturna onde se realizavam algumas apresentações esporádicas para um público restrito. A empresa precisava expandir sua marca para sobreviver no mercado. E o motivo da contratação de seus serviços era justamente este, encontrar pessoas afins que pudessem descobrir que naquele ambiente funcionava o que as atraiam, pois os adeptos que comungavam de tais gostos faziam tudo anonimamente, talvez pelo julgamento da sociedade ou por preferirem a privacidade. Aí então se encontrava a complexidade para a desenvoltura da criatividade de Charlote na criação do slogan. 
Ela pesquisou sobre o local, as fotos pareciam ser retiradas no século passado devido à rusticidade dos móveis e ambientes. Retirou os óculos e se fixou nas imagens, tentando restaurar em si, alguma lembrança que parecia embaraçar sua mente. Sentia uma sensação de medo e nostalgia. Piscou várias vezes e esticou o corpo em sua escrivaninha, até que o celular novamente passou a tocar, dessa vez, insistentemente. 
−Olá, Ito. – disse com um semblante irritado.
− Oi, minha flor... Pensei que dormiria hoje sobre a mesa do trabalho. – ele riu, sarcástico.
− Não seria uma má ideia. Mas daqui a pouco já estou indo para casa. – disse, tentando não entrar no assunto que a prendia ali.
− Ok. Assim que chegar, me avise, passarei lá. 
− Não, Ito... Melhor não...
− Não? Achei que quisesse ir ao Teatro.
− Estou cansada, podemos deixar para uma próxima vez. 
− Ah, tudo bem... Podemos ao menos comer churros na feira da esquina de sua casa? – ele riu dessa vez. 
− Estou realmente muito cansada... Deixemos também para o próximo sábado.
− E o que pretende fazer hoje?
− Nada mais além de dormir e dormir. 
− Ok, madame difícil... Amanhã então te pego para a caminhada clássica de domingo.
Antes que ele insistisse ainda mais, acabou concordando sabendo que este era o único jeito de deixá-la em paz. Desligou o celular e seguiu para o carro. As imagens do Clube 167 ainda estavam cravadas em sua cabeça. Jamais esteve lá, nem sabia da existência do local, mas algo a intrigava muito ao se lembrar dos móveis feitos de madeira escura, talhadas à mão. A falta de luminosidade trazia uma característica sombria somada aos objetos e artefatos de ferro envelhecido e correntes. 
Pegou o celular e pesquisou novamente o endereço. Estava perto dali. Não custava ir até lá e descobrir o que faltava para poder dar ênfase a seu trabalho. Ninguém a conhecia no Clube, pelo menos era o que esperava. E mesmo se encontrasse alguém conhecido, estava a trabalho, e não via mal algum em fazer uma pesquisa de campo. Checou sua bolsa para ver se havia trazido sua agenda. Olhou-se no retrovisor e deslizou o batom vinho escuro. Respirou fundo e passou a prestar atenção na numeração dos prédios. Estava no seu destino. A qualquer momento chegaria. 
O prédio com arquitetura medieval lhe chamou atenção. Não havia luminosidade na entrada, apenas um jardim bem esmerado e uma escada feita de pedra lavada. Os olhos acompanhavam as pessoas que entravam vestidas de roupas excêntricas. Os homens vestidos de preto levavam as mulheres por uma coleira. Elas se equilibravam em saltos e olhavam para baixo. Apesar da evidência subjugação, não se pareciam funestos por estarem sob o julgo de alguém. Abriu a porta do carro sem saber se seguiria ou se era melhor deixar para outra ocasião, mas a curiosidade era seu paredro.
Assim que subiu a escada, fora recepcionada por uma mulher que usava um corpete preto de couro, saia muito justa que continha uma abertura lateral, meia-calça e uma bota até os joelhos. 
− A senhorita fez alguma reserva? – a voz dela era firme.
− Não... Na verdade, eu... Eu vim para conhecer o local.
− Sabe do que se trata?
− Bem... Sim. – ela estava embaraçada.
A mulher pegou uma folha de papel e entregou a Charlote. Era um termo de responsabilidade quanto às práticas realizadas no Clube.
− Eu... Eu não vou participar... – disse, referindo-se às práticas. 
− Nunca se sabe. Todas dizem a mesma coisa, mas depois... Melhor me prevenir.
− Pode ter certeza que não irei. – disse firme.
− Mesmo assim, para entrar é obrigatória a assinatura. – finalizou a anfitriã. 
− Ok. – concordou sem encontrar outra saída. 
A olência de uma fumaça perfumada no ar invadiu suas narinas assim que entrou. A música era erudita e as pessoas quase não se olhavam, estavam todas concentradas no que foram fazer lá. Sentiu-se desconsertada por alguns minutos. Sua observação parecia incomodá-las.
Encaminhou-se até o bar e se acomodou numa mesa conjugada com a parede. Preferiu a última, quase na penumbra. Pediu um drinque, apesar de não gostar de beber, mas se sentia nervosa. Assim que veio a bebida, ela levava o copo à boca e sentia as pedras de gelo brincarem com sua língua, assim conseguiu relaxar um pouco mais. 
No palco subiu um casal vestido elegantemente enquanto todos os olhos foram direcionados para eles. No microfone foi anunciada a presença do Senhor Van Randon e sua escrava, Angelis Randon. Ele saudava os presentes, ela olhava fixamente para baixo. Sem saber exatamente o que esperar, Charlote continuou olhando a cena cada vez mais tensa. Observava os detalhes, pois era lá que se encontravam as respostas que tinha ido buscar. 
Com tato, Sr. Randon passou a despir sua escrava ali mesmo, diante do público, deixando-a apenas com o corpete e uma tanguinha minúscula que se escondia inteira entre suas nádegas. Ela não demonstrava timidez, e sim, respeito por tudo que o homem realizava em seu corpo, mesmo diante das pessoas. 
Randon pegou o microfone, tocou no queixo de Angelis e a fez olhar para ele.
− Existem algumas regras, que toda e qualquer submissa deve seguir, caso queira se sentir bem em uma D∕s. Eu tenho as minhas próprias, e me dedico a repassá-las a minha menina. A primeira diz sobre a continência e a necessidade de que esteja sempre disposta para quando e ao que eu quiser. Lembre-se, eu mando e você obedece. A regra é simples.
Após dizer isso, ele a tomou e ela se ajoelhou, beijando os sapatos do Dono enquanto um dos pés pisava em suas costas, e com a mão, ele puxou seus cabelos forçando-a a olhar para seus olhos.
− Nunca perca a dignidade e o respeito por si mesma. Só os fortes sabem e podem pertencer. 
Ao dizer isso, ele se apossou de algemas e a prendeu, levando-a para a cruz de Santo André fixada à parede. Prendeu os tornozelos e levantou os cabelos, beijando a nuca delicada dela. Pegou um chicote médio de 30 tiras, e o passou delicadamente em suas costas. Em seguida, deu a primeira lambada com maestria e controle absoluto sobre o acessório. 
Charlote passou a ouvir os sons que eram estralados na pele da masoca, e seu corpo todo se arrepiou em lampejos e sensações. Não sabia ao certo o que acontecia dentro de si, era como se conhecesse exatamente o que menina estava sentindo. 
Foram várias chicotadas, e ao término, Randon a soltou das algemas e a amparou até que descesse do palco.
Nem deu tempo de seus batimentos cardíacos voltarem ao normal, e mais um casal subiu ao palco, desta vez fora anunciada uma sessão avulsa. Tentou prestar atenção sobre o que se tratava, e descobriu que ali não era um casal em uma D∕s, e sim, um dominador experiente e uma moça que praticava sadomasoquismo esporadicamente. O homem se apresentou como Senhor Faed, e em seguida, falou:
− Ame a dor, mas exija que seja apenas a outra face do prazer. 
Não havia neles uma cumplicidade como no casal anterior, exceto o desejo pela prática. Isso podia ser notado na forma como a moça olhava para os acessórios que o Dominador iria utilizar. Seus olhos brilhavam e ela demonstrava estar pronta. Ele se apoderou de uma palmatória com várias tachinhas de ferro em sua superfície, e passou a fustigá-la nas nádegas da menina, após colocá-la em um cavalete com a bunda para cima. Os gemidos dela ecoavam desejo por todo o salão. De vermelha, a pele passou para um tom mais escuro, enquanto a masoca oferecia ainda mais seu corpo, empinando-o como se estivesse apreciando o gesto ao invés de se retrair. 
Com o coração ainda mais acelerado, ela viu o casal saindo do palco, e outro subindo. Sua pulsação sanguínea passou a bombear com mais intensidade. Ela olhou para os olhos amendoados do homem que lá estava vestido de calça social preta e camisa azul. Observou a barba bem feita e lábios avantajados. Teve medo de mirá-lo mais uma vez e ser notada, tamanha era sua ansiedade em descobrir mais sobre ele. Algo lhe era familiar, mas por nem um momento se lembrou de tê-lo visto antes. 
Elegantemente ele puxou sua submissa pela guia e a colocou de joelhos, próxima aos seus pés. Retirou a guia da coleira e a beijou sobre os olhos. Existia nele algo mágico e hipnotizante. Não era comum olhar apenas para uma pessoa e se sentir daquele modo. Pediu mais uma dose da bebida e passou a esfregar as mãos, que suavam frio. Ela precisava saber ao menos seu nome, que não fora anunciado. O que tinha naquele dominador que chamou tanto a sua atenção? 
− Beijar os pés de teu Dono é apenas uma de algumas das reverências... Faça! – ele ordenou a menina, e esta cumpriu de imediato, tocando nos sapatos dele como alguém que alcançasse o céu. Beijou-o e o venerou de tal modo que chegou a tocar as pessoas que assistiam. Apossou-se das mãos do Senhor e as beijou. Assim que terminou, ele a pegou pelos cabelos e a trouxe para perto de si, falando baixo no ouvido, o que excitou ainda mais Charlote. Ela não fazia ideia do que ele tinha dito para a escrava, mas imaginou uma frase assim:
Quero-te, uma putinha, uma cadela sempre no cio, sempre pronta...
Depois ele pegou o microfone e disse em voz alta:
− Ame teu Dono. Permita que ele te ame.
Dizendo isso, apossou-se de uma corda e passou a amarrar o corpo da submissa, do ventre para cima, prendendo os seios até ficarem roxos, o que a fazia entrar em delírio a cada toque do Senhor. Cada nó era feito com excelência de uma obra de arte. Sentou-a num banco baixo, prendendo as pernas de modo que ficassem abertas. Olhava para o sexo da submissa com lascívia e paixão. Eu sentia o cuidado que tinha com sua peça, por cada parte do corpo dela. Com um flogger, passou a estocar toques rápidos e circulares em sua vulva enquanto hora ou outra perguntava a ela quem era seu Dono. 
Para o espanto de Charlote, a menina teve um orgasmo em pleno palco, o que deixou o Dominador cheio de satisfação.
− Bater é satisfatório, mas quem está sob o jugo deve gostar de apanhar e ter o hábito de gozar enquanto apanha, caso não tenha, descubra uma maneira de fazê-lo. – disse ele, encerrando sua apresentação. – a voz dele era forte e perene, como se pudesse cortar por onde fosse propagada. 
Os olhos de Charlote acompanharam os movimentos enquanto ele descia do palco seguido por sua submissa. Sentiu-se em desespero sem saber exatamente o que fazer para ter informações sobre aquele Dominador. Sentiu um aperto no peito, algo forte, sem nome. Não era normal o que estava acontecendo, mas não havia outro modo de reagir.
Viu quando as costas largas do corpo grande passaram pela porta que dava à recepção, e pensou em abordá-lo. Seria afamada de maluca, mas isso era o que menos importava no momento. Precisava descobrir o motivo pelo qual ficou daquela forma, perdida, e em êxtase, não acreditava que seu nível de carência havia chegado a este ponto. 
Saiu tropeçando nos degraus do local, com o copo na mão, sussurrando palavras desconectas. Foi até a recepção e abordou a pessoa que a recebeu.
− Por favor, me diga quem é o último casal que se apresentou?
A mulher a olhou de forma estranha, sem muita vontade de responder. 
− Ele é o proprietário do Clube. – disse apenas isso, secamente.
Até que a frase processasse lentamente na mente de Charlote, e ela conseguisse ligar os fatos, agonizou cada segundo que se passava. 
− Obrigada. – deixou o copo em cima do balcão e saiu. 

Enquanto dirigia, foi pensando sobre o que aconteceu. Então ele era o dono do Clube 167, sendo assim, percebeu que estava diante da pessoa que contratou seus serviços. Quase não acreditou que havia falado com ele ao telefone, mas não se lembrava do tom da voz, pois naquele momento era apenas a profissional e seu cliente. Mais pasma ficou quando percebeu que tinha o número do celular do Dominador em sua agenda, e que seu nome era AT. Ficou se perguntando sobre as iniciais, mas era muito tarde para decifrar mais um mistério. 
Parou o carro na porta do condomínio, e entrou diretamente em sua vaga na garagem. Subiu o elevador com o celular em mãos, olhando para o número em seus contatos, obcecada pela ideia de ir além do que podia para saber tudo, exatamente tudo a respeito daquele homem.

Ao acordar de manhã, com seu celular tocando, já sabia que Ito não descansaria enquanto não o atendesse. 
− Estarei pronta em uma hora. – disse, desligando o aparelho em seguida, sem esperar por sua resposta. 
Programou o celular para o modo soneca, e dormiu por mais meia hora. Assim que começou a tocar novamente, levantou e se jogou com coragem debaixo do chuveiro. Lembrou-se das cenas da noite passada, e nem percebeu que estava se tocando, fielmente, como uma loba no cio. Sentia vontade de experimentar o que vira. Jamais admitiria isso para qualquer outra pessoa, mas não conseguia mentir para si mesma que seus desejos haviam se acendido por conta das mãos daquele Dominador, da voz, da forma como fala e toma. 
Trocou-se de frente ao espelho, olhando para seu corpo. Nunca mais havia se visto, sentia-se desejada por si mesma. 
Após a caminhada, Ito e Charlote foram tomar café da manhã. Ela sentia-se tomada, roubada da realidade. O olhar distante despertou a curiosidade do noivo, que parecia insistente e incomodado com o jeito repentino dela.
− Está diferente hoje, ou é impressão minha?
− Está muito impressionado ultimamente. – respondeu.
− Pode ser... Mas seu olhar, conheço bem. 
− Estou muito focada em meu trabalho. 
− Acredito que precisa de férias. Ninguém consegue produzir se não olhar para si mesma, preocupar-se com sua pessoalidade. 
− Minha pessoalidade está diretamente ligada ao meu trabalho. 
− Ou o utiliza para fugir do mundo?
Charlote o olhou, irritada. Estava sendo difícil disfarçar sobre as coisas que estavam a perturbando ultimamente, e agora, ter de ser elegante perante uma pressão psicológica parecia demais. 
− Acredito que nosso passeio acabou por hoje. 
− Você já não estava aqui, Charlote. – disse ele chateado. 
− Desculpa... Preciso descansar. – disse, tentando se levantar e chegar o mais rápido possível em sua casa.
− Quer ir para minha casa?
− Não, não... Quero minha cama, meu travesseiro. Amanhã começa tudo de novo.

Assim que chegou a sua casa, mal pôde acreditar que se livrara de Ito naquele dia. Parecia arrogante pensar desta forma, mas estava sendo sugada por uma força descomunal, que a levava para outra realidade. Era como se o que faltara em sua vida desde o que consegue se lembrar, havia surgido do nada, tomando todo o espaço dentro de seus pensamentos. 
Pegou novamente o celular, e assim ficou olhando para o número de AT, até que ideias surgissem em torno do seu projeto, deveria apresentar alguma prévia nesta semana que entrará. Precisava estar preparada para enfrentar a ânsia quando estivesse de frente a ele. Precisava se mostrar boa no que faz, eficiente e profissional. Queria causar alguma impressão. Queria que ele a notasse de algum modo. Mal podia acreditar que estariam de frente um ao outro por algum momento. Era a chance que teria para descobrir mais fontes, mas... Como?
Jogou-se na cama e passou a imaginar de onde o conhecia para estar tão impressionada. Havia muitas perguntas sem respostas em sua mente. Sua vida parecia ser um mistério para si mesma. Tudo a sua volta denotava desconexão com a realidade. Sentia-se um peixe fora d’água, isso lhe causava dor sempre que pensava assim. Nunca obteve notícias de um parente sequer, mal sabia se um dia eles existiram. Estava embriagada num mundo que parecia, muitas vezes, inventado. Ou tudo não passava de um pesadelo que em algum momento acabaria. Ela não lembrava exatamente de nada desde o dia em que acordara e parecia ter nascido deste ponto. Jamais comentara isso com Ito, que sempre perguntava sobre seu passado e família. Como explicar a ele, que para si mesma isso não fazia sentido?
Chorou sem ruídos. Sabia que ser forte era um privilégio, e coragem não lhe faltava. Ela mesma não identificava de onde vinha tamanha força. 



Confidências Pessoais
Capítulo 1



O dia raiou com ar de festa. 
Saí de casa um pouco atrasada, mas não a ponto de me perder de mim mesma. Estava ainda aflita por tudo que havia acontecido ontem. As cenas estavam muito acesas em minha mente, o que poderia dificultar o processo natural do meu dia. 
Levei algum tempo para conseguir sair de casa, mas trouxe comigo o rascunho de meu projeto, Clube 167. Havia muito trabalho para ser desempenhado naquele dia. Pesquisas em comunidades do BDSM seriam uma das opções. Talvez nosso trabalho começasse por ali.
Li tantos relatos, vi tantas imagens, que fiquei meio zonza. Entrar naquele universo realmente era algo muito diferente do modo como o mundo se apresenta aqui fora. Contei quase quatro páginas do que havia abstraído de minha pesquisa, o que me rendeu boa parte do dia, mas estava satisfeita. O restante eu sabia como desempenhar após ter todo o material em mãos, afinal, este sempre fora meu trabalho. A ideia era a mais complicada de desenvolver. 
Ito me fez cinco ligações até agora, às quinze horas. Confesso que precisava pensar sobre este relacionamento após a entrega do projeto. Certamente a proposta financeira fora boa, e quem sabe não poderia investir em algo, ou até mesmo, fazer uma viagem. Mas sinceramente, o que me traga de modo descomunal, ainda é o que está acontecendo por dentro. Parece que despertei, e que devo de qualquer modo mudar a minha vida, mas não vejo como fazê-lo. Ito é um ótimo rapaz, de boa índole, porém, não havia nada nele que me atraia, a não ser a companhia num mundo tão vazio e sem respostas. Pensando friamente sobre o assunto, ele está sendo utilizado por mim, de modo egoísta, o que faz eu não me sentir bem comigo mesma. 
Assim que terminei de fazer o café, segui de volta para minha sala, pensativa e um tanto perdida. A primeira imagem foi o sapato marrom e a postura através das costas. Arrepiei instintivamente. Eu sabia que era ele, mas não queria acreditar. A primeira vontade foi de dar meia volta e sair pelos fundos. O segundo desejo foi correr até onde ele estava e saciar minha curiosidade sobre o que me tirou a paz. Com a força de uma águia, lá vou eu para mais uma missão. 
Entrei me sentindo meio estranha. Os olhos dele estavam afundados no jornal que lia. A perna cruzada sobre o joelho direito lhe davam um ar de superioridade. Eu tossi sem jeito, para que notasse minha presença, e assim, sem pressa, os olhos dele percorreram meus pés, parecendo investigar cada detalhe dos meus dedos que ficavam à mostra na sandália. Subiu no mesmo ritmo até minhas pernas, baixo ventre, abdômen, seios, pescoço e parou em meus lábios, o que me desconsertou no mesmo instante. Os olhos pousaram sobre os meus, como se pudessem me desfigurar num único ato. Senti um ardor queimar minha intimidade, e um lampejo de luz e cores invadirem minha memória, tentando me forçar a algo que não acontecia. Vi os olhos amendoados brilharem numa intensidade quase artística, eu o reconhecia sem nunca antes termos nos visto. Percebi que do mesmo modo ele se prendeu em algo sem nome e sem explicação em relação a minha imagem. Os segundos passavam e não conseguíamos dizer uma só palavra. Parecia bom e temido estar diante dele. Eu não estava errada, algo naquele homem era impressionantemente anormal. 
− AT? - fui a primeira a arriscar, ainda com a voz meio reprimida.
− Muito prazer, senhorita Charlote. 
E era nesse exato ponto que eu queria cair no chão como uma boneca de pano. Ele era ainda mais atraente quando falava com um par de olhos profundos e brilhantes, e um meio sorriso que não se distraia. 
Eu pensei em estender a mão para cumprimentá-lo, mas ele sequer fez menção de fazer tal gesto, então me reservei em minha total insignificância. Fui até a minha cadeira sob seu olhar, e sentei-me o mais rápido que pude. Pigarreei, tentando amenizar o mau jeito, e busquei dentro do mais profundo do meu ser profissional, a expressão apropriada àquele momento. 
− Espero que o que consegui extrair de minhas pesquisas, seja considerável. Fiz um prospecto para o projeto, talvez se analisasse com calma, perceberia que os pontos demarcados na propagação da imagem, foram realmente o mais interessante de toda a proposta. – sorri ainda sem jeito, tentando me manter na linha, e profissionalmente convincente. 
Ele pegou a pasta de papel com o projeto, e voltou os olhos para mim, então fiz de conta que não percebi. 
− Onde encontrou as fontes? - ele quis saber assim que passou a ler as primeiras linhas.
− Na internet. – respondi um pouco insegura, sem saber se esta era a melhor resposta.
− A senhorita tem conhecimento do assunto? - perguntou sem rodeios.
− Em qual sentido? - senti desta vez um medo que me faria parar a conversa por ali.
− No sentido de experiência.
− Sou profissional, trabalho com fatos e pesquisas. 
− Ah sim. – ele disse, apenas. 
− Creio que seja o suficiente. – emendei. 
− Creio que poderia se aprofundar mais no assunto, para sentir qual é a necessidade da casa. – disse num tom ríspido e quase grosseiro, o que poderia não me diminuir como profissional, mas atingiu também meu orgulho.
− Acredito piamente que sou boa no que faço. Se, ler atentamente a proposta, saberá que está diante da pessoa certa. 
Precisei acreditar no meu potencial, mesmo que de modo forçado. Ele era desafiador, e eu, um coelhinho assustado.
− Vou confiar em seu trabalho. Mas antes, gostaria de saber por qual motivo esteve em meu estabelecimento à minha procura. 
Cada palavra dele era como um martelo em minha cabeça. Não haveria motivos para mentir nesse momento, mas mesmo assim, eu ainda procurava por uma saída rápida e beneficiadora. 
− Não fui procurá-lo, estava a trabalho, fazendo pesquisa de campo, conhecendo o estabelecimento. – quase tossi, mas ao invés disso, apertei minha perna por debaixo da mesa, buscando apoio em mim mesma. 
− Certo. Assistiu minha apresentação?
− Certamente. – fugi do olhar dele.
− E o que achou?
− Ajudou-me em minhas convicções sobre a ideia do projeto.
− Algo mais? - ele insistia em algo que eu não queria falar.
− Não.
− Quando começa a execução do projeto?
− Assim que aprová-lo. 
− Está aprovado.
− Mas você leu as premissas? Concordou com os pontos de execução e locais de marketing?
− Quanto a isso, não me interessa os meios, Charlote. O que quero é resultado.
Pasmei. Arrogante. Exigente. Talvez fosse melhor ele procurar outro profissional.
− Mas preciso saber se concorda com a proposta. Caso não se agradar, não saberei se não me disser onde está o desacordo. O marketing está relacionado ao posicionamento da empresa, que se materializa na memória do cliente através dos produtos e serviços que atendem suas demandas. Isso tudo se dá através da comunicação, que é o passo seguinte. Após estudar e compreender o comportamento de compra do cliente agrupa-se um conjunto de ferramentas e mídias formando um plano de comunicação que tem como objetivo propagar as mensagens para seu público, através de um conceito criativo e eficiente, ou seja, que facilite a compreensão da mensagem. E é neste ponto que estou tentando lhe fazer prestar atenção quanto a minha estratégia desenvolvida, que se encontra em suas mãos. 
− Vou repetir. Como disse, a única coisa que me interessa é o resultado, seja ele de onde vier. Eu não entendo sobre estratégias de marketing, e por este motivo busquei seus serviços. Estou confiando em sua experiência como profissional.
Senti o desejo de me afundar em minha cadeira. Se algo desse errado, provavelmente eu sumiria do planeta para não encarar a ira deste ser intrigante e explicitamente direto. 
− Tudo bem. Amanhã já começo a execução.
Ele se levantou sem dar tempo de eu ficar vermelha.
− Espero-a no Clube amanhã, às vinte e duas horas. Seja pontual.
− No Clube?
− Creio que entendeu perfeitamente o que eu disse.
− Sim, mas não vejo a necessidade.
Ele pegou sua carteira e tirou de lá um bolo de notas de cem reais, e depositou sobre minha mesa. 
− Esta é a metade do pagamento que combinamos.
Fiquei sem ação. Imobilizada. Vendo meu estado, ele colocou o dinheiro em cima da mesa. 
− É uma ordem. – disse ele sem reservas.
− Ordem? - eu não acreditava no que ouvia.
− Sim, estou a contratando, e vou acompanhar o desenvolvimento de seu projeto, como você mesma disse, de pesquisa de campo. Em seu prospecto falta algo a mais. Você precisa pegar o “x” da questão, sem falar que o público que quero agradar, primeiramente é aquele que já está lá, além dos que levará após seu marketing. Aprenda... – disse ele dessa vez se aproximando de mim a ponto de me sufocar com sua presença, e eu ver perfeitamente a cor de seus olhos intrigantes. – Se não conhecer o que agrada a quem já está lá, como vai levar novos adeptos? Precisa conhecer mais sobre a essência das práticas. Meus clientes serão os seus. Você quer que seus clientes te ouçam? Você é um líder referente? Então, seja um expert em algo. Não se deve simplesmente contratar um redator e delegar tarefas como escrever vinte textos como conteúdo. Coloque-se no lugar de seus clientes para ajudá-los, você só pode escrever sobre seus próprios produtos, a partir do ponto de vista do consumidor. Faça com que o assunto seja sempre sobre o usuário, e não sobre você.
− Eu... – ele me calou sem me tocar um dedo sequer.
− Estarei esperando por você.
Ao dizer isso, virou-se e saiu, deixando-me completamente alterada, eu não cabia dentro de mim mesma. 
Desliguei meu celular e tentei fechar meu dia com paciência. Não queria ser incomodada. Não queria saber se meu noivo estava louco atrás de mim. Tudo que eu precisava era de um tempo para refletir e colocar minha cabeça em ordem. 

Fui para casa sem esperar mais nada daquele dia. Amanhã chegará como um fenômeno em minha existência como publicitária. Minha campanha estava fadada ao desastre ou a um grande marco em minha profissão. Já sobre AT, eu não sabia mais o que pensar. Faria qualquer coisa milagrosa para separar os fatos de impressões. 
Ao abrir a porta de minha casa, ligo meu celular, e antes de jogar minha bolsa sobre a mesa, ele toca. Olhei no visor, e apareceu lá o nome do homem que tomou minha paz naquele dia. Sem saber se atendia, meus dedos me traíram e coloquei o aparelho na orelha.
− Vá vestida apropriadamente. – disse ele com um fundo musical no ambiente que se encontrava, o que me deixou curiosa.
− O que quer dizer?
− Para saber o que eles desejam, você precisa se sentir um deles. 
− Acredito que estamos indo longe demais com os detalhes. – disse enfim, sentindo-me cansada e aflita.
− Não quero saber sua opinião. Esteja pronta, isso basta. 
Desligou.
Meu coração acelerou. O que quis dizer com – esteja pronta! Não combinamos de nos encontrar no Clube? 
Minha noite se tornou um inferno astral. Fui até a sacada e vi de lá uma cidade cheia de luzes e segredos. Corri para o banheiro e entrei no chuveiro de roupa e tudo. Estava a ponto de enlouquecer já nos primeiros momentos desta viagem. 
Como ele poderia amar alguém, como disse naquele dia no Clube? Lembro-me de suas palavras: Ame teu dono. Permita que ele te ame. 
Que universo é esse?
Tirei a roupa molhada e passei a tomar um banho normal. Sentia minhas mãos percorrendo meu corpo, mesmo sem mexê-las. Elas se moviam sozinhas. Estava enfeitiçada, um tipo de fascínio por um mundo que não me pertencia.

Acordei com minha campainha zunindo em meu ouvido. Vesti meu roupão e minha surpresa ao abrir a porta, foi algo contagiante.
− Encomenda para a senhorita Charlote. – disse um entregador com uma caixa grande nos braços.
Esfreguei os olhos e arrumei o decote do roupão.
− Encomenda? Acabei de acordar. Não comprei nada ainda.
− Está aqui. – ele mostrou o endereçador com meu nome e endereço. 
Peguei a caixa um tanto receosa e abri lentamente. Lá dentro, uma roupa. Toquei-a e a peguei, colocando sobre meu corpo. Era um vestido vermelho escuro e justo, forrado por um tecido preto, com uma fenda gigante dos pés até a altura da coxa, ficando à mostra boa parte da perna. Peguei o bilhete que acompanhava a roupa.
“Não se esqueça, esteja pronta às vinte horas em ponto.”
Cismei. Tossi. Arfei. E agora? 
Cancelei meus compromissos do dia. Liguei para Ito e disse que estava bem, prometendo vê-lo amanhã, e talvez até dormíssemos juntos. Inventei uma desculpa, que faria uma curta viagem hoje para o interior, e chegaria somente à noite, muito cansada. Ele compreendeu, mas certamente não gostou, o que não me atingiu, e o que infelizmente me fez reconhecer que precisaria de uma estratégia para acabar de vez com essa mentira. 
Troquei-me rapidamente e fiquei andando pelas ruas, até passar as horas e eu poder voltar para casa mais tranquila.

Às vinte horas, já estava no banho pensando em como desenrolaria essa tragédia. Às vinte e quarenta, secava os cabelos enquanto me olhava no espelho e me achava estúpida. Às vinte e uma e trinta, já havia calçado o sapato que poderia combinar com o vestido. Passei um batom contagiante e um pouco de perfume, me questionando se o que estava fazendo era correto. Coloquei o modelito e me olhei novamente, parecia-me a atrizes de filmes antigos. Os ombros e colo ficaram de fora, sob a luz de qualquer ambiente, minha pele clara reluzia. Às vinte e duas horas meu celular tocou, e nos segundo depois, tudo se perdeu ao ouvir a voz dele:
− Desça. – ele disse, e meu coração poderia sair pela boca se não fosse a geografia perfeita do corpo humano.
Entrei em seu carro importado com cheiro de fábrica, e minha voz sumiu, desapareceu do mapa. Olhava-o de resvalo, dirigir, com suas mãos fortes e potentes, meu estômago embrulhava de nervoso.
− Foi difícil?
Oi?
− Foi difícil cumprir ordens?
− Eu não cumpri ordens, AT, estou a trabalho. Sou chefe de mim mesma. Aceitei sugestões. 
− Ah sim... Não é AT, é Senhor AT.
Eu pude ver um quase sorriso nele, zombando de meu mal-estar. 
− Qual será minha função no Clube, especificamente?
− Irei treiná-la, como se fosse uma de nós. 
− Não, absolutamente, não é necessário tanto... – fiquei incrédula. Eu não precisava de um treinamento sadomasoquista para ser profissional, estava totalmente fora de cogitação esta sugestão. – Está fora de ordem este treinamento.
Eu disse isso como um peixe patinando na água. 
Ele estacionou o maserati, e me olhou com o olhar de um falcão. 
− Vamos nos entender? - disse ainda me olhando. – A partir deste momento está em treinamento. Tudo que eu disser, não são palavras, são ordens. Está sendo contratada, exclusivamente, para atender às minhas solicitações. – disse ele pegando um talão de cheques do porta-luvas, em seguida, a caneta. Acendeu a luz interna do carro e passou a preencher a folha. Assim que terminou, passou para mim, um contrato com duas páginas em frente e verso.
− Eu a espero ler. – disse ele.
O contrato era de exclusividade quanto aos meus serviços de publicidade, durante três meses. Meus nervos ferviam, fazendo-me salivar. A quantidade de dinheiro oferecida pela contratação era irresistível, mas minha razão calculista e ética pedia para não aceitar.
− Eu não posso assinar este contrato. Não posso aceitar. Sinto muito. – disse eu, esmagando-me no vestido muito justo enquanto os olhos dele não saiam da minha coxa à mostra, o que me fez sentir um tanto ridícula. 
− Não tenho pressa... Você tem até o final desta madrugada para assinar. 
Dizendo isso, ligou o carro e saímos com ele escolhendo uma música para tocar. Quando ouvi o canto gregoriano de introdução de Fairy Tale de Shaman, pensei que choraria. Por alguns segundos, imaginei que esse homem me vigiava há meses, seguindo-me, descobrindo meus gostos e manias. Ele conseguiu me quebrar em fração de segundos. Minha fragilidade veio à tona como se eu fosse ainda uma menininha perdida que precisasse de um colo, um amparo ou... Uma lembrança... Apenas e tão somente uma lembrança. Mordi meu lábio tentando me conter, mas o cheiro dele entrava pelas minhas narinas e me contraia num ser minúsculo, quase insignificante diante de sua mão. Abstive-me de ser corajosa, quando o que eu mais queria era me encolher num lugar mais próximo de algo quente e confortável. Fiquei como uma borboleta batendo suas asas presas em uma porta, enquanto o sonido do carro em movimento e o soprar do vento em meu rosto, desfaziam meus cabelos e só me traziam uma certeza, o tempo parece não passar.
Não queria molhar minha maquiagem, nem chorar na frente de um estranho, o que piorou a situação, pois quando me vi já estava num pranto secreto, calado, somente com as lágrimas umedecendo minha face. O mundo era gigante diante de um grão de areia que sou. Talvez eu tivesse soltado um soluço ou apenas ouvia demais sem sentir um décimo de minhas próprias reações. 
Novamente ele estacionou o carro, e desta vez, juro que se ele se aproximar, eu abro a porta e saio correndo. De modo cortês, AT retirou o lenço de seu bolso e me entregou. Aceitei-o com as mãos trêmulas, e limpei o rosto sem saber o porquê isso tudo estava acontecendo.

− Nada de mal irá lhe acontecer. Eu não deixarei. – disse me olhando, o que fez parecer que me tocava também. – Vou te proteger de seus próprios medos. Cuidarei de você, até que possa se cuidar sozinha. Não precisa temer, eu estou aqui.
Balancei a cabeça, concordando sem entender com o que assentia, e lhe devolvi o lenço.
− Guarde-o consigo. – disse numa voz suave. 
Ele acariciou meu rosto com o polegar, pensei que diria mais alguma coisa, mas ao invés disso se voltou para o volante. A música tocava não apenas meu corpo todo, mas atingia meu âmago de forma desconhecida. Eu sentia saudades... Sentia que poderia morrer de saudades... E nada naquele momento poderia me consolar mais do que me lembrar da razão consoante dessa sensação da falta. Minha subtração abstrata me condenava. 

Após algumas voltas pela cidade, em silêncio, até que eu me acalmasse por completo, chegamos ao Clube, basicamente quase meia hora depois. Pisei fundo no piso com minha sandália de salto alto, e ao lado daquele estranho. Segui como uma guerreira que confiava totalmente em seu ponto de apoio, que naquele momento tornou-se sua espada. As luzes coloridas não incomodavam, mas os murmúrios dos adeptos em sons diversos, deixavam-me zonza. 
AT me pôs sentada em uma cadeira confortável na mesa de frente ao palco, e ali deixei que os minutos escorressem soltos pela aquela atmosfera estranha e curiosa, até a voz no microfone me despertar. Madame Zaran se apresentava com sua escrava. Em movimentos rápidos e muito habilidosos, ela colocava uma série de agulhas nas costas da submissa, que gemia sutilmente diante dos desejos de sua Dona. Percebi os dedos apertarem a almofada que estava sentada. Era de desejo. Desejo de tocar ao menos um milésimo de segundo em sua Ama. 
Fui despertada daquela visão pelas mãos de AT que me puxaram para algum lugar que eu tentava descobrir. Ele me conduzia diante de corredores obscuros de pisos cobertos por tapetes orientais e paredes que ostentavam objetos sadomasoquistas. Fiquei olhando para tudo, boquiaberta. 
Entramos numa sala coberta por cortina grená. De um cômodo saiu uma menina, que a reconheci quando a olhei nos olhos. Ela era a mesma que se submetera a AT naquela última apresentação que assisti. Assim que o viu, ela se ajoelhou e beijou suas mãos. Achei bonito, mas uma sensação estranha me apanhara de súbito.
− Saudações, meu Senhor. Grata por me permitir revê-lo. – disse ela ainda de joelhos até ele ordenar que se levantasse. 
− Antonele, esta é Charlote, e quero que a instrua em minha ausência, no que ela precisar. – disse ele sem meias palavras, o que me pegou de surpresa, pois não saberia dizer no que aquela criatura poderia me conduzir. 
− Sim Senhor. – ela respondeu, e só depois me olhou. Por mais que seu olhar fosse curioso, não deixou se levar pelo o que sentia. Sorriu de maneira gentil e me cumprimentou com a cabeça. 
− Antonele é minha escrava e braço direito. Ela irá te passar tudo sobre submissão, e como se sente como submissa. 
− Talvez haja algum equívoco, AT, eu não estou muito interessada em invadir a privacidade de Antonele, e creio que não preciso me aprofundar tanto no assunto para resolvermos as questões do marketing. 
Ele espirrou fogo com o olhar. Percebi um leve tremor em seus lábios e, pela primeira vez, pensei que me dirigisse alguma palavra vulgar e de baixo calão. 
− Primeiramente, Charlote, o que estou fazendo é minha parte na colaboração do projeto. Não tem como desenvolver algo sem conhecer o universo, como eu mesmo já lhe expliquei. Segundo, não me chame pelo nome na frente de minha escrava. Terceiro, ninguém invade a privacidade de ninguém diante de uma ordem. Estamos entendidos?
− E onde acha que devo receber essas instruções? - estava me sentindo incrédula. Ele simplesmente se sentia no direito de me dar ordens.
− Como estamos negociando exclusividade em serviços prestados, durante a desenvoltura do projeto, creio que poderá ser onde eu achar conveniente. 
Ele olhou para Antonele e a pediu que se retirasse. Ela se ajoelhou e beijou as mãos dele novamente, e saiu. Eu fiquei com a sensação de ter na boca uma maçã inteira, enquanto não sabia como fazer para dizer não a ele. 
− Gostaria de ter todas as informações... Mesmo por que, ainda não lhe respondi quanto ao contrato. Não sei se devo aceitar. Tenho outras obrigações e interesses a cuidar, não estou disposta a me dedicar apenas a um tipo de projeto.
− Acredito que não está entendendo o que estou tentando falar há horas. Temos um pré-acordo, seria muita falta de descomprometimento de sua parte, me entregar o serviço pela metade. Poderia processá-la por falta de ética no Conselho de sua profissão. 
− Não desejo me sentir obrigada a nada. Sou profissional liberal, não estou agregada a nenhum tipo de absurdo como a este. 
Ele me olhou diretamente nos olhos. Tocou-me pela primeira vez, segurando forte em meus ombros, trazendo meu corpo pequeno, para perto do seu porte másculo. Senti sua respiração em meu rosto, e observei seus lábios se movimentarem enquanto ele pronunciava:
− Charlote, eu confio plenamente em seu trabalho. Confio que não me deixará a ver navios. Mas para que tudo seja perfeito, é necessário abrir mão de seu orgulho, pois ele não cabe diante de tanto talento. Ademais, você é uma mulher inteligente, não estamos lidando com porcos ou equinos, estamos tratando de um assunto sério, que depende neste momento de sua única e exclusiva cordialidade em aceitar. Não posso obrigá-la a nada, exatamente. A qualquer hora que desejar ir embora, assim como a trouxe, eu a levarei, mas que neste momento fosse honesta o suficiente para me dizer que não quer desenvolver este trabalho. 
Fiquei me sentindo encurralada. Os passos dele foram progredindo até que eu me sentisse andando para trás, como caranguejo. Senti minhas costas na parede, e com as mãos um pouco mais firmes sobre meus ombros, ele me suspendeu, fazendo-me perder o ar, trazendo-me ainda mais para perto do seu rosto. 
− Diga-me, com suas palavras e lábios, que não deseja desenvolver o projeto de marketing para o meu Clube. – sua voz era doce e contagiante, fazia ciranda em torno dos meus ouvidos enquanto meus pés eram suspensos do chão. 
Um bater na porta me libertou dele, que ainda tinha suas mãos fazendo pressão em minha pele mesmo sem estarem lá. Senti um formigamento no local, e um sentimento confortável, mesmo diante de uma pressão psicológica. 
− Está quase na hora. – uma voz veio lhe chamar para a apresentação. Ele ainda me olhou atravessado, e disse com o mesmo tom de voz de antes:
− Pense... Você tem até o final desta noite para me dar sua resposta. – dizendo isso, chamou por Antonele e saíram do local, deixando-me passada. 
Intimidada, segui o corredor que me levou para aquele ambiente, e me sentei na mesma cadeira que antes estava. Antes que eu pedisse uma bebida, o garçom já vinha trazendo algo na bandeja. Era um copo de Martini com um bilhete curto:

“Experimente se permitir. Eu tenho certeza de que não se arrependerá.”

Peguei o copo da bandeja mais que rapidamente, e, em cinco goles, devorei a bebida e pedi que trouxesse mais. Na terceira dose, um pouco tonta, percebi que AT já estava em cima do palco em sua apresentação com Antonele. Ele estava concentrado em tudo que fazia. Eu ouvi o chicote estralar e vi as marcas no corpo moreno dela. As feições do rosto dele se modificaram num segundo, trazendo à tona um lobo faminto e insaciável, que lambia a pele chicoteada e levantava novamente o açoite em movimentos vorazes, com pressa e sem redenção. Ele era insaciável. 
− Quem é você? - ele perguntava por diversas vezes, e ela respondia:
− Sua cadela, Senhor. 
Ele colocou o chicote nos lábios dela e a fez beijá-lo, encerrando sua apresentação. 
Ao vir em minha direção, ainda em estado de transe, secou o rosto com o guardanapo e pediu uma bebida. Fiquei olhando impressionada para suas feições, não conseguia piscar. 
Meus dedos aflitos em cima da mesa foram observados por ele, nada passava despercebido diante dos seus olhos. Tomou minha mão e prendeu firmemente sob a sua. Com a outra, bebia o Martini. Vi quando colocou a pedra pequena de gelo em sua boca, e assim, levou minha mão presa até seus lábios, mordiscando somente a ponta de meu dedo, encostando-o ao gelo. Senti um arrepio percorrer minha espinha dorsal. Queria me afastar, mas não consegui. O efeito do álcool misturado às sensações que aquele homem me causava era algo difícil de conter. 
Ao me soltar, eu nem queria ter saído, então ele pegou sua pasta, abriu, e de lá retirou o contrato.
− Vai assinar?
Observei o chicote sobre a mesa. Fechei os olhos. Ouvia a música inglesa, ela pedia para alguém se entregar. Vi quando pegou a caneta e a deixou no ar, diante de lábios irresistíveis. Neste instante meu pulso foi segurado por uma mão gigante e pesada. Tremi.
Peguei a caneta de sua mão, que prendeu a minha mais uma vez, e me olhou de modo desafiador. Ele não queria apenas que eu assinasse, queria que eu me rendesse!
Observei o local onde se colocava a assinatura, e mal consegui me atentar às cláusulas contratuais. O que eu mais queria era me esconder de tudo isso, ou me jogar de vez nas mãos daquele maluco. 
Assim que assinei, levantei da cadeira. 
− Para onde vai? - disse ele, percorrendo meu corpo com o olhar.
− Quero ir para casa. – eu disse.
− A noite nem começou... – disse ele pacientemente.
− Para mim já se concluiu. 
Ele sorriu pela metade e molhou os lábios. Levou tranquilamente a mão num botão sobre a mesa e apertou. Minutos depois havia a nossa volta, dois brutamontes vestidos de terno.
− Podem levar a senhorita. 
Senti-me extremamente ofendida. Levei a mão na boca e suspirei. Fui usada. Fui abusada. Fui ridicularizada. Que diabos eu esperava e queria desse homem?
Não tive outra opção, precisava sair dali de qualquer modo. Segui os homens que me levaram até um carro, e de lá, somente um me acompanhou, dirigindo o veículo.
Quando estava quase relaxando, outro susto me tomou.
− Para onde o senhor está me conduzindo? - perguntei assustada, sabendo que aquele não era o caminho para minha casa.
− Para onde fui ordenado a lhe conduzir.
Eu não podia acreditar que aquele cretino estava me raptando agora! 
− Por favor, pare o carro, vou descer.
− Não tenho ordens para deixá-la descer antes de chegar em nosso destino.
− O senhor não entendeu? Eu não sou prisioneira de ninguém! E quero descer desse maldito carro!
− Entendo, senhorita, mas infelizmente não poderei atender ao seu pedido.
O que eu poderia fazer? Esmurrá-lo? Pular do carro com ele em movimento? Gritar pela janela? Ligar para a polícia?
Naquele exato momento me ocorreu de ler atentamente o contrato que havia assinado. Peguei-o da bolsa o mais rápido possível e pedi para o brutamonte acender a luz do carro.
Minha indignação fora tamanha já nas primeiras cláusulas:
“A partir desta data, durante os próximos 60 dias, estará sujeita a acompanhar o contratante aos locais que este desejar, estando em sua inteira disposição durante 24 horas do dia e sete dias da semana.”
“A partir da data deste contrato, estará sob a guarda e tutela de AT, reservando-se a se instalar em sua residência pelo tempo limitado por este documento, até que finde os serviços contratados.”
“A multa contratual para o descumprimento de qualquer uma das cláusulas presentes, sujeitará a contratada ao pagamento de trinta vezes o valor dos serviços contratados.”
Está bem, eu me ferrei? Eu me ferrei, é isso mesmo? - quase gritei aos quatro ventos.
No final do contrato,
“Estou ciente e concordo com todas as cláusulas elencadas, e torno-me durante o prazo estipulado, cumpridora das obrigações descritas, por justo julgá-las ser perante o ato contratual.”
E a burra assinou as duas vias. Sendo esta, a dela. – pensei alto.




Capítulo 2

Entrei naquele casarão quase cega de raiva e revolta, mas ao abrir a porta, a curiosidade tomou fortemente o lugar de já quase antiga angústia. Não era apenas uma casa, mais parecia uma masmorra de filmes antigos, por todos os lados haviam acessórios sadomasoquistas. A cor predominante era a preta e vermelha escura. Ferros, correntes, couro e instrumentos de tortura. Nada ali lembrava exatamente uma casa comum. Senti-me tonta, como se já estivesse conhecido antes algum lugar que tenha essas características. 
Fui recebida por uma mulher uniformizada que me chamou pelo nome, o que deixou bem nítida a intensão premeditada do tal AT, que certamente cuidou de todos os detalhes e artimanhas. 
− Boa noite, senhorita. Poderia me acompanhar? Vou levá-la até seu aposento.
− Meu aposento? - fiz-me de demente. 
− Sim, o quarto da senhorita já está preparado e aromatizado, espero que goste.
Quem sou eu na fila do pão? Quando uma prisioneira iria ser tratada assim? Enfim, nada o isenta de uma grosseria sem fim. O que ele fez foi muito errado e eu não abrirei mão facilmente de meus direitos de me sentir ofendida com tudo isso.
− Escute, senhora, por um acaso tem noção do horário que seu patrão costuma chegar? Eu gostaria que me acordasse, caso eu adormecesse. 
− Não tenho ordens para subir aos aposentos do andar de cima, senhorita, quando lá há pessoas nos quartos. Lamento.
Fiquei olhando para ela com uma cara de paisagem, certamente tudo que eu dissesse ela jamais ousaria a ir contra as ordens do poderoso AT, e só me resta subir para a droga do quarto perfumado e esperar o infernal Dominador chegar. Certamente fui quase marchando degraus acima. 
Quando entrei no quarto, para minha total surpresa, não havia cama, e sim, um tapete muito grosso e felpudo, forrado por um sutil lençol. As paredes eram revestidas por couro, e o lustre tinha as luzes vermelhas que deixavam o quarto todo naquele tom. Fui para o close, e lá continha um armário com roupas femininas. Acendi a luz, e todos os cabides tinham um papel indicando uma data. Fiquei olhando para aquilo, tentando entender o intuito. Quem poderia marcar a data que usaria uma roupa? Certamente essa pessoa não sou eu. 
Saí do close e me joguei no único local que havia para dormir. Não tinha outro jeito, tinha que dormir ali mesmo, apesar de que não era tão ruim assim, o tapete era macio e felpudo. Ali estava realmente muito aromatizado, como disse aquela senhora, não entendi o motivo do agrado, quando é oferecido o chão para que sua visita dormir. A luz vermelha foi me causando um sono incontrolável, eu ainda estava sob o efeito da bebida. 



Cheguei por volta das quatro da manhã. Subi até o andar de cima e abri lentamente a porta do quarto de Charlote. Olhei-a dormir, parecia um passarinho fora do ninho. Teimosa. Estava descoberta, o que me animou a puxar o lençol até seu pescoço. Ela se mexeu levemente, e estacionei a cabeça para olhá-la mais de perto. O rosto dela... Havia nele algo tão familiar que senti vontade de beijá-la. Forcei-me a deixá-la. Saí do quarto com o pensamento ainda na pele dela. Tudo naquela menina parecia ter sido feito para me encantar. O cheiro dela... Ah, eu o sinto mesmo de longe... 
Fechei a porta com cuidado e fui para meu quarto com a sensação de sono perdido. Precisava mantê-la por perto até o momento de convencê-la de ser minha. Não abrirei mão. Preciosa... Especial, eu a quero como nunca quis outra menina. Não é de meu costume tomar alguém de si mesma a qualquer custo, mas não haveria outra maneira de mostrá-la minha verdadeira face, e o quanto ela lateja por dentro... Incontrolavelmente. 
Quando procurei seus serviços, eu já a observava entrando e saindo todos os dias de seu escritório. A primeira vez que a vi foi num dia de sol, assim que saiu daquele bendito café, apressada e perdida. Notei seu olhar a procura de algo, e suas mãos, quando soltas, não tinham direção. Mãos pequenas e inquietas. Senti vontade de beijá-las. Percebi no seu jeito de andar, a falta de alguém que segurasse em sua mão. Vi quando entrou em seu carro e ficou mais ou menos cinco minutos parada, olhando para o nada. Percebi sua solidão interna e carência por algo que ela mesma não havia descoberto em si. Eu faria de tudo para mudar seu mundo... 
Na segunda vez que a vi, ela entrava numa loja de roupas femininas. Eu a observei enquanto seu descontentamento por tudo que havia no mundo, persegui-a. Entrei na mesma loja e fiquei por ali, escolhendo algo para comprar para Antonele, desculpa para vê-la mais um instante. Seus olhos percorriam as instalações e prateleiras, nada a fazia feliz. Cansada de experimentar, ela se despediu da vendedora e novamente entrou em seu carro, pensando em algum lugar para ir, submersa em seu mundo inacessível e secreto. Sem encontrar uma opção, foi para seu apartamento. Ao chegar na frente do prédio, atendeu o celular, e olhou para trás, ele estava lá, o noivo baunilha que não a satisfazia como mulher. Os olhos dela perderam ainda mais o brilho quando ele se aproximou . O namorado baunilha não sabia, que nada em seu miúdo universo poderia preencher essa menina. Vi quando ele a abraçou e os braços dela caíram estendidos nas laterais do corpo. Naquele momento Charlote era uma boneca de cera, e não se agregara àquele rapaz tão somente por amor, sobretudo, porque não sabia viver sozinha. Precisava de proteção e cuidado. Precisava de amparo e uma mão forte que a sustentasse, e não uma que não encaixava a sua, como a dele. 

Deitei em minha cama e fiquei com a imagem dela em minha mente, sem poder imaginar o que fazer para dominar seus anseios. O cheiro dela ainda me rondava como um castigo. Queria me levantar e trazê-la para minha cama, mas se o fizesse, não conseguiria domar o cavalo selvagem que havia no peito dela. Eu a conhecia de algum outro lugar, em algum tempo... Ela não faria essa bagunça com minha cabeça, do nada, sem explicação. 

Quando o dia amanheceu, fechei os olhos e adormeci.


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