Meu Senhor - parte 4




Aragorne estava sentado à mesa sob o olhar de suas criadas, que aguardavam a ordem para servir o jantar.
— Tragam-na. — Disse rapidamente e sem delongas enquanto degustava o vinho, que era levado com requinte aos lábios, em uma taça de cristal com fios de ouro em toda a extremidade.
Marquês Aragorne a observava caminhar entre as criadas até que chegar próxima a ele. Os olhos claros de Charlote estavam arregalados, reparando em tudo ao seu redor. A cadeira foi puxada para que ela se sentasse, e o vinho servido à sombra das velas, que foram acesas nos castiçais sobre a mesa.
Ele observava o cabelo loiro preso num coque, e os lábios rosados saboreando a bebida.
— Amanhã começará seu trabalho às seis horas. – ela só assentiu com a cabeça − Suas alunas serão moças mais ou menos de sua idade. Sabe dançar? 
A pergunta havia a pegado de surpresa, pois esperava que conversassem sobre a didática das aulas que ela ministrará. 
— Bem... aprendi a dançar com minha tia nas festas que ela promovia na fazenda.
— Mostre-me. — Sua voz tinha pressa.
— Senhor... eu... 
Aragorne bateu três palmas e logo estavam lá três músicos com instrumentos de corda.
— Levante-se! — Ordenou o Dom.
— Eu... — Pretendia argumentar, mas a firmeza do olhar dele compenetrava-a. Em seguida, o som harmônico invadia toda a sala de jantar, iluminada pelas velas.
Charlote se levantou timidamente e passou a trocar os passos aprendidos com a tia, ora tocando na saia do vestido para segurar delicadamente a ponta do tecido entre os dedos, ora girando; em seguida se curvava, flexionando os joelhos, que eram mostrados discretamente. Aragorne ficou petrificado na imagem demonstrada particularmente a ele. Em suas veias não havia dúvida, sentia-a como sua, assim como cada minudência do corpo leve e delicado. Aplaudiu várias vezes num sorriso que poucos já presenciaram.
Após terminar a dança, sentindo-se ainda inadequada diante do que acabara de fazer, observa o olhar dele sobre seu colo desnudo. 
— Sabe cantar? – ela já ia negar, porém, a voz do dominador a interrompeu − É claro que sim. Nenhum outro anjo cantaria igual ao que presenciei certas vezes em que a ouvi. – agora ele deixou-a confusa − Na escolinha. Eu a vi ensinando as crianças a cantarem algumas cantigas, digamos, clássicas. Onde aprendeu? 
— Quando pequena, minha tia era cantora de ópera. 
— Perfeito. – disse ele, encantado − Não precisará cantar no momento, pois já comprovei seus dotes. Mas... por favor, fique em pé novamente. – ele ofereceu sua mão para ajudá-la a se levantar da cadeira − Caminhe até àquela parede. — Apontou. 
Mesmo acanhada, ela acatou. Lembrou-se das aulas de postura que sua tia também havia lhe dado.
— Está ótimo! – disse ele − Vamos comer.
Aragorne a observava em cada fração de detalhes. Ela sabia se portar à mesa. Sabia escolher os talheres certos para cada prato de comida. Usava bem os tipos de taças e copos para as diferentes bebidas. 
— Muito bem. Temos uma senhorita bem-educada entre nós. O que mais sabe fazer? 
— Toco piano, aprendi na escola de freiras a qual estudei, e sei bordar. 
— Eu não poderia esperar nada melhor. Semana que vem, chegará da França uma artista que virá especialmente para ensiná-la sua arte. Quero que aprenda a fazer no corpo, desenhos feitos por henna
— Com qual finalidade? — Ela perguntou, assustada. 
— É para as senhoritas, suas alunas.
— Mas...
— Logo entenderá. 
— Pensei que ensinaria seus empregados e ler e escrever.
— Perdoe-me por ter ocultado a verdade. Mas as aulas que gostaria que ministrasse são as de dança, canto, etiqueta e postura, piano e bordados para cinco meninas que se encontram no castelo.
Ela fez menção de se levantar e foi parada por um toque no pulso. Firme. Quente.
— Eu não posso ensinar a ninguém sobre esses dotes. São pessoais. Não se tratam de profissionalização.
— Tudo que vi, muito me agradou. Duvido muito que eu encontre outra moça tão capaz. Gostaria também que participasse das recomendações e instruções noturnas dirigidas pelo Mestre Olaf. Lá entenderá o que está acontecendo, e quem são suas alunas. Sua aula iniciará às seis da manhã, poderá começar pelo canto.
— Com sua licença, preciso me deitar. — Seguiu, indignada, sentindo-se enganada, sem compreender o motivo.
Aragorne a observou pensativo, porém satisfeito, até que a imagem dela sumisse de sua visão.

tema

Mestre Olaf apagou a última lamparina de sua sala de estudos e observou a moça novata passando diante de sua sala. Os olhos azuis miravam a imagem dele, curiosa, mas baixou o olhar em seguida. Ele a cumprimentou e acenou com a cabeça e imaginou ser aquela, mais uma propriedade de Aragorne. Antes que a porta se fechasse, foi tomado de súbito por uma sensação estranha, como se a alma de sua bela tocasse em seu ombro e anunciasse algo que ele não conseguia traduzir. Embaraçado, seguiu rumo aos seus aposentos. Ele não errava, era um aviso.

Nos aposentos do Marquês Fendis, o ar, vindo da janela aberta, soava luxúria e esparramavam-se, por todo o quarto, desejos secretos. As novatas estavam ali para servi-lo, ele poderia tocá-las, mas não antes da cerimônia de posse. Preferiu seguir a tradição, mas seus olhos perambulavam pelas roupas finas, que colavam nos corpos adormecidos que pousavam ao seu lado na grande cama, confortável e rodeada por um véu de cor carmim e almofadas indianas. Um pequeno afago nas madeixas de cada uma era o suficiente para acalmar sua ânsia incandescente, pelo menos por enquanto. Logo estariam a seu dispor, fazendo exatamente tudo que ordenasse, e da maneira que quisesse. Mas o maior de seus caprichos estava na masmorra, escondida por detrás daquela porta, à frente da cama.



Charlote acordou no horário recomendado, vestiu-se com as roupas presenteadas e olhou-se no espelho para arrumar os cabelos, que foram presos num coque. A porta de seu quarto se abriu, e duas criadas entraram, observaram a arrumação de suas madeixas e entreolharam-se.
O senhor Aragorne prefere seus cabelos soltos. — Disse uma delas.
Não estou aqui para agradá-lo. — Respondeu num tom seco.
Mas... — A criada desejou argumentar, porém fora vedada pela outra que a acompanhava, apenas com um olhar firme.
Em seguida, seguiram para a sala onde seria realizada a primeira instrução às alunas, até então, desconhecidas por Charlote.
A porta se abriu, e pela janela pôde perceber que o dia ainda não tinha clareado totalmente, e o vento frio entrava, esvoaçando a cortina fina e alva. Olhou para as cadeiras do local e observou cada uma das moças que ali estavam. Sentiu um clima tenso, e por um minuto se questionou quanto ao motivo de estar ali. As meninas não pareciam entender a razão de sua presença, pois o olhar perdido nos olhos, por algum momento, revelava medo e ansiedade por algo sem nome.
Ignorou suas impressões e postou-se à frente de todas. Antes de falar qualquer palavra, ouviu quando a porta se abriu e de lá surgiu uma mulata muito bonita e alta, que andava quase na ponta dos pés. Atrás dela, a imagem de Aragorne, só então percebeu que ele a segurava pelo pulso. Soltou-a e a seguiu com os olhos até que se sentasse juntamente com as outras, em seguida apontou para frente, a jovem obedeceu e olhou para Charlote, o que a causou um certo desconforto.
A mulata era a única que trazia no pescoço uma espécie de coleira de aço. Também foi a primeira que a olhou com segurança, mas no fundo existia um brilho estranho, algo parecido com raiva, como se a professora fosse alguma ameaça.
Charlote pigarreou e olhou para Aragorne, desejando que ele falasse de vez o que quisesse e se retirasse logo dali. Ele compreendeu a mensagem, e a cumprimentou com um movimento de cabeça.
Não está faltando uma menina? — Ela perguntou após contar o número de meninas que estavam na sala.
Apsel, que já ia se sentar, resolveu ficar em pé até que Aragorne respondesse. Com ira, olhou para ele num gesto de desafio. Esperava que agora ele revelasse quem era sua futura irmã de coleira.
Por enquanto são somente essas.
Então, Apsel correu os olhos para cada menina sentada ao seu lado. Poderia ser alguma delas, mas qual?
Em seguida, Aragorne fechou a porta. Mesmo sem poder vê-lo, ela sentia os efeitos na pele que aquela presença a causava.
Bom dia a todas. – disse Charlote, sem delongas – Não sei qual fora a informação passada a vocês, mas de hoje em diante estarei aqui, seguindo uma agenda de atividades recomendadas pelo senhor Aragorne. Entre elas, aulas de canto, dança, piano, bordado, etiqueta e postura. – ela percebeu que algumas se entreolharam, e continuou – Essas não são minhas especialidades, apenas aprendi durante algum tempo em convivência com pessoas que me ensinaram tais dotes. Sou professora como profissão, e leciono crianças até dez anos de idade. Meu nome é Charlote, e gostaria de saber o de vocês.
Como ninguém fez menção em se pronunciar, ela começou a perguntar individualmente. Domeniquè, Friga, Kemyle... faltava a mulata que chegou por último.
Qual seu nome? — Ela perguntou firmemente, não mais se incomodando com o jeito desafiador da moça.
Meu nome é Apsel. Pode me chamar dessa forma, não gosto de apelidos. E você é a nova pupila de Marquês Aragorne?
Não compreendi. Charlote respondeu, ignorando a ironia de Apsel.
Entendeu sim. Mas saiba, Ele jamais a pertencerá. Ele não pertence a ninguém.
Diante dessas palavras, as demais moças viraram em direção à mulata com espanto. Certamente ninguém entendeu onde ela gostaria de chegar, apenas se intrigaram com a expressão.
Vamos começar. Hoje ministrarei aulas de canto. Gostaria que, primeiramente, prestassem atenção no que farei, depois pedirei que me sigam, para que eu possa conhecer o timbre de cada uma. — Disse, para encerrar o assunto fora de contexto.
Durante duas horas, que fora a duração da aula, o contato com as meninas fora praticamente o mesmo. Teve dificuldade com a interação. Pouco conseguiu de resultado, pois permaneceram introspectivas, e nas poucas vezes que ousaram a acompanhá-la durante o canto, mostraram-se intimidadas. Mas não se importou. Ela mesma não fazia questão de estar ali se não fosse para ajudar sua família.


Após o almoço, passeou no jardim do castelo, e ficou por algumas horas lendo na beira do lago. Não percebeu os olhos curiosos de alguém que a observava de longe, pela janela de um aposento, com uma lupa de aumento. Com os lábios entreabertos, ele sorriu sem perceber a presença de Aragorne logo atrás de suas costas.
Sei que gostou, mas ela não é negociável. — Disse Aragorne a Fendis.
Talvez fosse a única que realmente interessaria ao meu clã.
Certamente é uma criatura encantadora, mas não está disponível.
A tal professora está sob seus cuidados? — Perguntou, curioso. Antes mesmo de qualquer tentativa de investida, Aragorne tratou de responder:
De certa forma. Só ofereci os serviços prestados por ela às suas escravas, pois sei da competência da moça no que faz, e isso muito tem a somar em Siv. Embora sejamos concorrentes à coroa, não podemos negar que o bem comum da realeza atinge a todos. E o mal também.
Certamente. — Respondeu Fendis, ainda a observando com a lupa.
Respeite-a! Não admitirei que ultrapasse os limites do bom senso. Este é o leme de Siv, respeito.
Jamais desrespeitaria uma senhorita. Apenas não compreendo seu interesse e proteção exacerbada em alguém que não lhe pertence.
Eu não neguei essa possibilidade. – deu as costas para o Marquês – De qualquer forma, ela está aqui para acrescentar em nosso bem-estar e progresso. Lembre-se disso! — Disse, e saiu.

Nos aposentos de Fendis, após a primeira aula, das muitas que viriam, as meninas estavam sentadas, esperando para saber sobre seus destinos, e por que estavam ali. Permaneciam caladas, incomunicáveis, mesmo na ausência do Dominador.
Kemyle se levantou e caminhou em direção à porta de ferro. Tocou na fechadura e não teve êxito, estava trancada por chave. As demais a olharam, incrédulas. Admiravam a ousadia da ruiva.
Por que não dizem nada? – Kemyle soltou a voz – Irão se contentar com tudo isso? Aceitar goela abaixo uma condição de prisioneira?
Chegou perto de Domeniquè e levantou seu rosto pelo queixo.
O que há com você? – ela tentou abaixar seu rosto, mas a ruiva prosseguiu – Não sente vontade de fugir daqui?
Não podemos. Friga respondeu.
Como não podem? Estão loucas?
Nossos pais... irmãos... são miseráveis. Passavam fome até então.
E somos moedas? Fomos trocadas por um pedaço de pão? — A ruiva perguntou, indignada.
Fomos trocadas por dignidade. — Falou, pela primeira vez, Domeniquè.
Dignidade? – a ruiva riu alto e mexeu nos cabelos – Onde está isso?
Hoje está... nos meus desejos. Eu não desejo ser devolvida. Friga encerrou o diálogo, deixando Kemyle pasma.
O que você quer dizer com isso? — Balançou os ombros de Friga.
Ela quer dizer que você deveria descobrir sua entrega. Sua entrega a mim, seu único Dono e Senhor. Entrega do seu corpo, alma e coração. — Respondeu Fendis, ao entrar sorrateiramente no aposento.
Ele se aproximou da ruiva e tocou em seu pescoço levemente. Os dedos deslizavam calmamente pela pele dela, que se arrepiou em segundos.
Uma boa menina sempre receberá o meu melhor... – puxou-a pela cintura e tocou com os lábios a orelha dela – É o que mais desejo.
Kemyle não percebeu, mas estava de olhos fechados ao ouvir as palavras dele, vindas num sussurro. Deu-se por si e abriu os olhos antes que ele percebesse.
E quando irá me libertar? — Olhou para ele sem medo.
Você é minha. Só minha. Não posso libertá-la. – encerrou, com brilho nos olhos.
O corpo dela todo estremeceu – Quero que vista aquela roupa para o jantar. Ficará linda em você. — Apontou para a peça que estava em cima da cama. Um corselet de couro preto, com três fivelas douradas na frente e uma saia de cetim na cor turquesa, com o cós no quadril contendo dois botões de rosa feitos de tecido, um em cada lado. Tinha um caimento leve e era curta.
Eu não uso roupa... — Ela foi interrompida.
A partir de hoje não usará mais a palavra “eu”. O “não”, somente será utilizado quando não for para se negar a cumprir uma ordem. – ele tocou nos lábios dela com um dos dedos e os contornou – Entendeu?
Sim. — Ela disse com esforço, tentando não dizer.
O correto é: sim, Senhor. Vamos, repita. — Tocou na cintura dela, fazendo uma leve pressão, o suficiente para ela sentir que ele não estava brincando.
Sim... Senh... Sim, Senhor. — Conseguiu finalizar, e então ele tirou a mão do corpo dela.
Friga, a quero com o vestido dourado e preto. — Apontou para a outra peça sob a cama.
Sim, Senhor. — Ela respondeu, olhando para as mãos dele.
Domeniquè, use o vestido branco de renda.
Sim, Senhor. — Disse, num tom baixo e de cabeça baixa.
Apsel andava de um lado para o outro em seu quarto. Tentava imaginar quem era a candidata a ser sua irmã. Recordou do rosto de cada uma das escravas que encontrara hoje na aula de canto, e não conseguiu identificar alguma como de Aragorne. Ela parecia adivinhar os pensamentos dele. Sabia quais eram seus gostos e manias, sem que ele soubesse disso. E naquele momento, usou isso a seu favor.
Ouviu barulho no corredor e reconheceu os passos de seu Dono. Não precisaria abrir a porta para saber que era ele. Encostou o rosto na madeira fria e fechou os olhos, tentando sentir o cheiro se esparramar por onde ele passasse. Assim que os passos se distanciaram, ela abriu a porta, vagarosamente, e arriscou a segui-lo. Era sua chance de descobrir a tal escrava anônima. Ela estava dentro daquele castelo, e naquele momento iria descobrir seu paradeiro, este era seu desejo.
Seu coração disparava à medida que seus pés chegavam a algum lugar. Arrumou o laço de seda de cor creme que caíra do ombro. Segurava a ponta do vestido para não se embaraçar na trocada de passos. Suas mãos suavam e seu cenho ficou tenso. Engoliu várias vezes a saliva e seguiu, corajosamente. Sabia que se fosse pega iria para o calabouço, por isso todo o cuidado era pouco e necessário.
Assim que percebeu seu Dono parar na frente de algum lugar, ela se escondeu atrás de um dos pilares que estavam pelo caminho. Olhou curiosa e avidamente. “Então era ali...” — Pensou. Ele tinha nos braços uma roupa que era coberta por um lençol, e ela não pôde ao certo reparar.
Aragorne entrou e fechou a porta sem perceber que estava sendo seguido.

Desgraçada... — Sussurrou sem conseguir se conter, enquanto cravava as unhas na palma da mão, sentindo primeiramente a ardência, depois o ódio aumentar a ponto de não perceber o sangue escorrendo por entre seus dedos. Chorou baixinho e seguiu correndo para seu quarto.



Fendis colocou-se em pé na frente de suas escravas após fechar a porta de seu aposento. Tocou a mão de Friga e a trouxe para junto de si. Olhou profundamente em seus olhos antes de dizer qualquer palavra. Ela se sentiu estática. Os olhos brilhavam como uma estrela perdida enquanto as outras meninas, em silêncio, encontravam-se sentadas entre as almofadas macias sobre o tapete.
Me diga, a quem pertence?
Ao Senhor de minha alma. Com toda força existente em meu coração. — Com emoção, pronunciou todas as palavras enquanto seus olhos marejavam sem que sentisse.
Permanecerá sob meu domínio até depois do fim?
Sim, Senhor.
Fendis a tocou no pescoço e colo. Desceu seus dedos languidos entres seus seios, o que a fez suspirar. Os mamilos enrijeceram, prevendo a aproximação do toque. Ele os acariciou e os beliscou com desejo.
Minha... Meus... — Disse num sussurro.
Em seguida, ordenou que se sentasse entre as meninas. Aproximou-se de Kemyle, que abaixou a cabeça assim que o percebeu.
Venha cá. – pediu sem rodeios. Ela pestanejou, tentando resistir, e novamente ouviu a voz de seu Senhor – É uma ordem. – deste modo, Kemyle se levantou e tentou demonstrar má vontade, até que as mãos dele enlaçaram sua cintura e a trouxeram para muito perto de seus lábios – Deseja ir embora, menina? — Perguntou, muito perto dos lábios dela.
Eu posso? — Ela perguntou, quase num ímpeto.
Você deseja? — Ele insistia, enquanto os dedos percorriam a pele de suas costas.
Se eu for, me fará algum mal? — Mentiu estar interessada na resposta.
Eu desejo que fique. Que se entregue. Que seja minha. – disse, devorando-a com os olhos rentes aos dela – Fique! — Sua voz era de ordem.
O que ganharei em troca? — Disse num tom hostil, porém falso.
Minha dedicação, por toda sua vida. — A voz dele saiu suave.
Kemyle se contorceu. Não conseguia resistir, mas precisava. Não era de seu feitio se entregar tão facilmente. Ele precisaria provar que realmente a queria, mas não sabia como pedir.
Eu... — Não sabia como dizer.
Não existe eu... — Insistiu ele.
O que fará comigo aqui? Não precisa de mim, terá a todas elas. — Apontou para suas irmãs.
Nenhuma substituirá a outra. Se for embora, levará consigo uma parte de mim. Você me pertence antes mesmo de estar aqui.
Ele a calou. Pela primeira vez, ele a fez se sentir assim.
Quem é seu Dono? — Quis saber dela.
Houve um silêncio remoto. O vento soprava para fora das janelas. Ela se sentiu aliviada em saber que isso quebrara o clima desesperador que se formara entre os dois.
Diga... – os lábios dele pareciam contorcê-la por dentro – Diga sem medo... Apenas a quero para mim.
Ela abaixou a cabeça, e ao invés de dizer, se ajoelhou diante dele. As lágrimas vieram, abundantes. Não precisaria de palavras para dizer o que sentia. Mas era necessário que dissesse.
O Senhor Fendis me capturou e me trouxe para cá, a troco de comida no prato de meus pais. Estou aqui, Senhor, ao seu dispor. — Fora o que conseguira dizer. Não foi dessa vez que conseguiria falar sobre o terremoto que se apoderava dentro de si, e a fazia sentir coisas que não desejava. Ele a dominava sem que ela mesma admitisse.
O que significam essas palavras, meu tesouro único e precioso?
Servirei ao Senhor.
Então ele sorriu e afagou a cabeça de Kemyle, sabia que aquelas palavras eram o máximo que ela conseguiria dizer por hoje, mas que, dentro daquele coração, muito mais havia para ser ofertado, e ele iria explorá-lo a ponto de que ela não sentisse mais orgulho.
Após ouvir as duas primeiras, precisava testar Domeniquè, para saber sobre sua decisão de permanência. Acreditava que ela ficaria. Nunca fora de falar muito, apenas observava. Ele não poderia se enganar, embora isso causasse algo imprevisível aos seus sentidos.
Menina, venha cá. – pediu, oferecendo a mão para que se levantasse. Assim que ela parou a sua frente, olhando-o diretamente, ele percebeu algo inusitado, como se não conseguisse senti-la. Fora a única que não se intimidou em fitá-lo. Poderia estar enganado, mas Domeniquè não parecia lhe pertencer – Diga, o que há com você?
Não entendi, Senhor.
Como ousa me olhar nos olhos? — Disse, perplexo.
Estou pronta para as suas perguntas, Senhor.
Sente o desejo de servir? Caso não sinta, não lhe pertence a decisão de permanecer, mas quero ouvir de você, de seu âmago. — Perguntou diretamente, com a mesma ausência de sentimento que existia nela.
Sim, mas... – ela se lembrou do que sentia por Olaf, mas não podia dizer sobre isso. Restava apenas uma alternativa, ficar para estar perto dele. Se fosse embora do castelo, jamais voltaria a vê-lo – Eu desejo servi-lo, Senhor, mas... gostaria de pedir algo. – torceu para que ele pudesse aceitar o que iria dizer. Uma escrava tem apenas um único dono, aquele que a toca sem que ele perceba. Sem que sinta, longe ou perto. Ela sempre será apenas dele. Gostaria de dizer isso, mas não o fará. Seu status pertence a um, mas sua alma... tem propriedade – Eu desejo muito servi-lo, Senhor, mas desejo ser tocada apenas quando me sentir preparada, se não for pedir muito. Desejo me sentir à vontade e familiarizada.
Que bom, minha menina. Que assim seja. – disse Fendis. No fundo, ele também não a sentia como sua. Mas não diria isso agora, pois o compromisso se iniciava desde a observação. Não sabia onde errara, mas sabia que errou. Quem sabe o tempo mostre o quanto está enganado − Respeitarei seu tempo.
Naquela noite, dormiu entre Friga e Kemyle. Precisava apressar-se com a cerimônia de encoleiramento. Desejava tocá-las. Tornara-se difícil continuar se abstendo. Ainda não sabia o que fazer com Domeniquè. Pensaria num modo de conquistá-la, mas se lembrou de que isso iniciaria primeiramente dentro de si, mas não a sentia como sua.

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