Capítulo 1 de - Depois da Primeira Vez, Desejos, Mia Antiere

Romance Adulto
Mia Antiere


Capítulo Um – O primeiro

As lágrimas ofuscavam minha visão. O Pavor era tão imenso que colocava a dor física em segundo plano. Caminhava sem realmente ver as ondas do mar, motivo que me levou naquela que seria as férias perfeitas.  Era impossível aceitar que meu tio tão amado tivesse feito o que fez comigo, mas as imagens permaneciam lá e me faziam tremer de pavor. Ele nunca havia deixado transparecer o monstro que realmente era.

A minha família era uma família comum, com pais cuidadosos e filhos amados. Éramos quatro, meus pais, minha irmã e eu. Minha irmã Aline, morava na capital há algum tempo para trabalhar e fazer seu curso de administração, já eu decidi ficar em Itatiba. Era apaixonada pela cidade onde nasci e também não queria me afastar do meu namorado, os 80 km que separa as duas cidades é uma distancia considerável. Não foi difícil convencê-los de que escolheria a faculdade após fazer vinte e um anos e que possivelmente não faria na capital.
Pedro e eu namorávamos desde meu aniversário de 15 anos. Nos conhecemos na quinta série do ensino fundamental e a amizade com o tempo foi se transformando.
Na mesma rua em que morava com meus pais também moravam meu tio Jonathan e sua família. Por morar próximo e ser o irmão mais amado do meu pai, passava muito tempo em nossa casa. Nos fins de semana fazíamos churrasco ou simplesmente uníamos a família para conversar sobre a vida durante o almoço.
Como filha mais nova sempre fui protegida por meus pais e quando comuniquei que queria viajar para a praia nossa casa virou um campo de guerra. Foram muitas discussões até que meu tio intercedeu por mim. Sempre tive o sonho de conhecer os lençóis maranhenses e quando ele disse que como presente do meu aniversário de vinte anos, que estava próximo, viajaríamos ele, a esposa, o filho e eu para o Maranhão me senti eufórica.
Foram dois meses em que só pensava em como seria maravilhoso cada dia no paraíso que era o Maranhão. Separava roupa para levar, fazia planos de lugares para visitar. Qualquer assunto levava a falar do Maranhão.
Em alguns momentos essa euforia toda irritava Pedro, mas ele acabava relevando, pois sabia que não adiantava reclamar do meu excesso de alegria.
- Aposto que não sentirá minha falta em nenhum momento. – reclamou dois dias antes da viagem.
Estávamos sentados na calçada em frente a minha casa esperando para ver o sol se pôr. Fazíamos isso quase todos os dias e sempre o sorriso de satisfação dele brilhava tanto quanto o sol.
- Não seja bobo. – respondi seu comentário levantando as mãos e esticando seus lábios até conseguir um sorriso.
- Eu amo você, garota! Não se esqueça disso em nenhum momento. – seu rosto ficou sério como raramente acontecia. Ele era um garoto brincalhão. Senti até vontade de desistir da viagem. Minhas mãos permaneciam em seu rosto como que tentando segurar o sorriso que desenhei.
- Prometo nunca esquecer. – respondi sabendo que ele esperava outra resposta.
Queria o sorriso de volta naquela face, mas não podia mentir para deixá-lo feliz, pois poderia ser desastroso. A mentira sempre vem acompanhada de desastres.
- Será que um dia você dirá que me ama? – questionou diante da minha resposta.
- Espero que sim. – fui extremamente sincera. – Gosto demais de você. Só não me sinto preparada para uma declaração dessas. Quero ter certeza de meus sentimentos e só terei essa certeza quando perceber que te olho da mesma forma que minha mãe olha para o meu pai ou que falo sobre você com o mesmo tom sonhador com que minha irmã fala sobre Enrique.
- Nossa! Agora fiquei deprimido.
Quando ele disse essas palavras senti que era o momento certo para mudar de assunto e trazer o sorriso que adorava de volta aquele rosto.
- Sorria. Não gosto de te ver tão sério. – minhas mãos que após cair de seu rosto estavam apertando-se nervosamente voltaram ao seu rosto. Ele as segurou e beijou suavemente.
- Espero. Tenho a paciência de Jó. – novamente o sorriso brincalhão estava lá e depois de um beijo tão suave quanto a brisa nos viramos em silêncio para observar o pôr do sol.Logo veria um pôr de sol muito mais bonito. – pensei ao imaginar o sol se ponto detrás das águas do mar.

Iriamos ficar grande parte do tempo em São Luiz, mas um fim de semana, ou mais, estava reservado para conhecer Barreirinhas e os famosos Lençóis Maranhenses.
No dia da viagem tive que tirar metade dos livros que havia colocado na bagagem. Meus pais acabaram me convencendo que não teria tempo para ler todos, que seria um peso desnecessário. Deixei na mala apenas dois livros por garantia e os itens necessários para uma viagem em que pretendia passar noventa por cento do tempo na praia.
Enquanto meu tio conversava com o taxista a caminho do aeroporto, permaneci em silêncio ao lado da minha tia Kátia. Quando chegamos ao aeroporto Internacional de São Luiz, já à noite, eu estava cansada e louca para tomar um banho. Meu tio possivelmente preocupado com meu silêncio perguntou:
- O que houve Fernanda? Permaneceu calada a viagem toda, está tudo bem?
- Tudo perfeito tio Jonathan! Só estou concentrada para não perder nenhum detalhe e um pouco cansada. Quando começar a tirar fotos o senhor vai ver o que é euforia. – ri e ele pareceu ter aceitado minha explicação. Não podia duvidar, pois minha felicidade era quase palpável.
            - Deve estar cansada mesmo. O que me faz lembrar que seu quarto será ao lado do nosso, ou seja, nada de aprontar. – ele piscou e por um momento não vi o rosto do parente em que confiava e sim de um homem estranho que viveu mais experiências que seus quarenta e dois anos permitiam.
            Balancei a cabeça levemente como para espantar a imagem indesejada.
            - Não se preocupe, vou me comportar como se estivesse com meu pai. – desta vez meu sorriso saiu sem muita espontaneidade. Um pequeno alerta disparou em algum lugar do meu cérebro, mas foi ignorado e abafado pelos anos de convivência com aquela família.
Olhei para minha tia para confirmar se era coisa da minha cabeça, mas ela estava tão ocupada tentando enfiar o bico de uma mamadeira na boca do filho que nem deu atenção ao que conversávamos. Decidi relevar aquela preocupação boba, com certeza era originada do meu cansaço da longa viagem. Afinal, o que poderia acontecer de ruim se estava com meu tio?

            Depois de um banho relaxante cai na cama e só despertei ás oito da manhã. Faminta e louca para explorar tudo que fosse possível. Como já era noite quando chegamos, mal percebi a fachada da pousada, mas sabia que era próxima a região central da capital maranhense. Olocal era simples, mas tinha planos de ficar pouco tempo dentro do quarto.
            Minha barriga reclamava enquanto caminhava para o quarto dos meus parentes. Bati a porta e ouvi a voz do meu tio:
            - Entre. Estamos aqui. – a voz dele era tão parecida com a do meu pai, tão decidida e autoritária.
            Abri a porta e entrei. Não sei o que esperava encontrar, mas meu tio de sunga não fazia parte de nenhuma das coisas que possivelmente encontraria. Apesar de ainda muito conservado, graças às horas que passava na academia eu não conseguia vê-lo como um homem bonito, era meu tio e só. Desviei o olhar para o chão e perguntei:
            - Onde estão Kátia e Paulinho? – permaneci com o olhar desviado.
            - Vão passar a manhã na casa da irmã de Kátia que mora aqui perto. Seremos apenas nós por algumas horas. Quais são seus planos? – ele parecia se divertir com meu embaraço. De repente senti que alguma coisa estava errada, senti o cheiro fraco de álcool e só então entendi que a voz dele estava um pouco estranha.
            Tive vontade de sair correndo.
            - Vou tomar café. Não raciocínio bem antes de comer.
            A coragem abandonou meu corpo no primeiro passo que ele deu em minha direção. Aquela situação estava muito estranha.
            Corri em direção à porta e tentando esboçar naturalidade ao me despedir tentei sair, mas a porta estava trancada.
            - Tio Jonathan!? – me virei para chamá-lo, mas já ele estava atrás de mim. Assustei quando ele colocou uma das mãos na porta me encarando.
            - Sim. – o hálito de álcool me deixou enjoada.
            - A porta está trancada.
            - Sim.
            - Mas... – tentei raciocinar lembrando que desde que entrei no quarto ele permanecia comigo – Quando o senhor disse que estavam aqui...
            - Olá princesa.
            Um homem moreno e alto saiu da pequena varanda. Usava uma bermuda colorida Esboçava um sorriso de prazer que me fez arrepiar de medo.
            - O que está havendo tio? – percebi que enquanto me esforçava para desviar olhar da quase nudez do meu tio o outro homem trancou a porta. Estava tão focada em meu embaraço diante da cena que não notei os passos do homem ou o barulho da chave na fechadura.
            - Está com medo? – não respondi – Você vai gostar. Sou bom nisso!
            Já tinha ouvido tantas historias sobre estupros, mas jamais imaginei que aconteceria comigo. Em instantes a boca dele estava esmagando a minha em um beijo violento. A língua forçando para entrar. Não fiquei parada esperando o que viria a seguir. Empurrei e bati nele, mas ainda era mais fraca. Ele só me soltou quando acertei entre suas pernas com o joelho.
            A sensação de liberdade durou poucos segundos. Vendo o colega de quatro no chão o moreno segurou meus dois braços forçando para trás.
            A dor de perceber que não sairia daquele lugar doía mais que o aperto em meus braços.
            Lembrei-me de Pedro. Ele era meu namorado por exatos cinco anos e eu sempre disse não quando tentava algo além de beijos e caricias. Para ele dizia que, por mais bobo que fosse minha decisão, só me entregaria ao homem que seria meu marido.
            Vendo meu tio se levantar me arrependi de ter negado meu corpo tantas vezes a Pedro, talvez fosse menos vergonhoso se eu não fosse virgem, talvez doesse menos. Minha cabeça trabalhava em possíveis formas de fugir, só para ter certeza de que não eram possíveis.
            - Segure ela para mim, Gigante. Depois que eu terminar será toda sua.
            Eu quis morrer ao ouvir aquilo sair da boca de alguém em que confiava. Como minhas mãos estavam presas pelo homem que me segurava por trás, usei as pernas para tentar chutar meu tio quando ele decidiu se aproximar.
            No primeiro chute que acertei ele quase me fez perder a consciência. Apertou meu pescoço tirando todo meu ar.
            Minhas reações passaram a ser mais lentas. Ouvia as palavras chulas que ele dizia enquanto tirava meu vestido, chupava e mordia meus seios. Ainda tentei reagir quando tirou minha calcinha, mas não era forte o bastante para os dois.  Senti meu corpo se rasgar quando já sem a sunga ele me penetrou sem nenhuma consideração. Por um momento me iludi que ele pararia quando percebeu minha virgindade, mas estava enganada. Ele apenas sorriu, um sorriso satânico. Tentei levar minha mente para outro lugar, enquanto aquele homem me penetrava cada vez mais frenético, uivando com um prazer doentio.
            Voltei na minha infância quando sentava na varanda em casa e ficava horas com minha única irmã Aline conversando sobre como seria nosso futuro. Ela queria ser dona de uma grande empresa e comandar a todos, já eu queria morar em uma fazenda cheia de plantas frutíferas, com meu marido e meus filhos. Ela ria da minha crença de que meu marido viria me encontrar em um cavalo branco como nos contos de fadas. Brigávamos e depois estávamos novamente na mesma varanda.
            Minha mente voltou ao presente quando senti o membro do meu tio escorregar para fora do meu corpo.
            A esperança de que estivesse acabado não me iludia. Ele se afastou e começou a fumar enquanto eu ainda permanecia presa nos braços do “Gigante”. O homem começou a lamber meu pescoço e sem nenhum aviso me penetrou por trás. Aquela dor despertou meu corpo adormecido e novamente tentei lutar, novamente em vão.
            - Gostosa! – ele falava enquanto me penetrava com força. O homem era tão louco quanto meu tio. Sussurrava ofensas quase que desconexas ao meu ouvido.
            Meu tio permaneceu fumando e olhando para a porta.
            Lutei até o momento que ele soltou meus braços e colocou um dos seus braços ao redor do meu pescoço dolorido, apertando a cada movimento brusco que eu fazia nas tentativas de me livrar dele. As lagrimas desciam por minha face, senti que me faltava ar, reagi novamente e ele foi apertando cada vez mais até que não senti mais nada. Uma escuridão me envolveu.


             Acordei em meu quarto na pousada. O corpo todo dolorido. Estava nua. Olhei para o relógio e percebi que pouco tempo se passou, ainda era manhã. Pensei em me matar ou matar os monstros que me machucaram, mas estava anestesiada, não conseguia sentir ódio ou qualquer outra coisa. Vesti uma roupa que cobria os hematomas e sai.
Estava disposta a fazer com que aqueles dois pagassem pelo que fizeram. Perguntei algumas pessoas onde era a delegacia e em pouco tempo estava na porta pesando o que aconteceria após a denuncia. Mas nada me faria mudar de ideia. Entrei, anunciei que queria fazer uma queixa de estupro, sem medir as palavras ou o tom de voz. O policial me olhou como analisando e julgando se eu não estava querendo me vingar de alguém ou se era uma prostituta e, por fim, me orientou a seguir por um corredor até uma sala onde estava escrito na porta Delegacia da Mulher.
            Bati e entrei. Uma mulher de aproximadamente cinquenta anos estava sentada na sala analisando algumas fotos. Olhou para mim com um sorriso e convidou para sentar.
            - Gostaria de fazer uma queixa de estupro. – repeti as mesmas palavras que disse ao policial.
            - Sim. Conte o que aconteceu.
            Ela colocou um aparelho em cima da mesa. Parecia um gravador. Novamente fiquei pensando que saber o que aconteceu destruiria minha família.
            - Pode ficar a vontade. Quando se sentir pronta estarei ouvindo. – sabia que a mulher não tinha o dia todo, então me levantei, tirei a blusa e diante do olhar de pena mal disfarçado comecei a contar tudo que aconteceu.
            Quando terminei meu relato e descrevi a aparência e onde encontrar os agressores, ela encaminhou um alerta para prender meu tio e o Gigante e depois de registrar o Boletim de Ocorrência me enviou para um exame no Instituto Médico Legal. Como eu estava longe dos meus pais, todo esse procedimento fiz acompanhada de uma policial. Falei para ela que não ficaria mais um dia na cidade e ficou decidido que assim que localizassem os suspeitos e fosse tratado de provar o crime seria encaminhado para continuar o julgamento em São Paulo. Permitiu que eu viajasse naquele dia mesmo. Até me ajudou a fazer uma reserva no voo da noite.           
Voltei para a pousada e com todo cuidado para não ser vista por alguém que poderia avisar meu tio da minha chegada entrei no quarto fiz a mala, chamei um taxi e sai.
                Quando o taxi chegou informei que era para seguir para o aeroporto, mas depois que passasse por qualquer praia. Sentia uma necessidade enorme de sentir a água salgada.
                Ele parou perto da praia Ponta D’areia. Desci e pedi para esperar sem importar com a possibilidade de perder todas as coisas que deixei no taxi. Usava uma blusa de mangas longas e um lenço no pescoço para esconder as marcas da violência. Caminhei para a praia sentindo a areia nos pés descalços. Em um surto de puro desespero entrei nas águas sentindo as ondas molhando minhas roupas. Fechei os olhos e por alguns instantes a única coisa que importava era o por do sol e a água gelada tocando meu corpo através do tecido da minha roupa.
                Fiquei assim por tempo indeterminado até que senti frio. Lembrei do taxista e voltei para a areia com intenção de entrar no taxi e esquecer aquela cidade e tudo que passou a representar para mim. Caminhei tentando colocar o lenço no lugar para evitar comentários dos curiosos e após poucos passos esbarrei em uma pessoa. Por estar caminhando com a cabeça baixa não percebi o homem que mexia no celular enquanto andava. Quando consegui me equilibrar nem pensei em simplesmente continuar andando, senti como se houvesse chumbo em meus pés. Encarei aquele estranho e não sai do seu caminho, olhei para cima encarando os olhos verdes e imaginando se houvesse sido diferente, se eu estivesse naquela praia passeando e esbarrasse nele. Poderia me apaixonar, ele poderia ser o homem que me faria feliz para sempre como nos contos de fadas. O estranho era que ele também não se movia, devia ter interesse em mim porque permaneceu encarando meu rosto do alto. Ele devia ter quase dois metros de altura.
                Depois de alguns segundos que me pareceram anos ele balançou a cabeça e com quase um sussurro se desculpou por ter esbarrado em mim. Fiquei observando ele caminhar apressadamente na direção oposta a que ia, ele olhava insistentemente para trás, como se houvesse esquecido algo.



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